Esqueça a ideia de que telessaúde mental é território exclusivo de startup. O SUS começou a oferecer teleconsulta psicológica gratuita para mulheres em situação de violência e para quem cuida de familiares sem receber nada por isso. São até 100 mil atendimentos por mês, por videochamada, com a própria mulher agendando sozinha, sem precisar de encaminhamento de outra unidade de saúde.
A escala muda a régua do mercado
Cem mil consultas por mês não é volume de piloto. É operação de porte, em um nicho que boa parte do mercado privado tratava como serviço premium, vendido por assinatura para quem podia pagar.
Quando o sistema público entra com esse tamanho, a referência de acesso se desloca para todo mundo. Para healthtechs e operadoras, o recado é direto. Disputar volume em terapia de primeira linha ficou mais difícil. O espaço que sobra está na profundidade clínica, na personalização e na integração com o resto da jornada de saúde do usuário.
O cuidado invisível finalmente entrou na conta
O serviço não olha apenas para quem sofreu violência física, psicológica, sexual, patrimonial ou moral. Ele também acolhe mães, avós, tias e irmãs que cuidam de pessoas com deficiência, transtornos do neurodesenvolvimento ou doenças raras.
Esse segundo grupo sustenta o sistema de saúde nos bastidores e nunca aparece em planilha nenhuma. São mulheres que encurtam jornada, adiam carreira e adoecem cuidando de outra pessoa. Reconhecê-las como público de saúde mental é admitir que o cuidado não remunerado é um problema de mercado de trabalho, não só de família.
Se você lidera uma empresa, essa conta já está no seu balanço. Ela aparece como absenteísmo, queda de desempenho e saída de talento feminino que ninguém sabe explicar direito.
Menos atrito, mais adesão
A engenharia do serviço é a parte mais interessante para quem constrói produto de saúde. Não é preciso apresentar documento que comprove a violência ou a condição de cuidadora. A equipe retorna em até 24 horas para marcar. Cada sessão dura no mínimo 50 minutos, em ciclos de até 10 encontros, com possibilidade de renovar.
E tem um detalhe que vale mais que qualquer funcionalidade. A proposta é que a mesma psicóloga acompanhe a mulher do começo ao fim. Vínculo terapêutico é o que segura a pessoa no tratamento, e continuidade é exatamente onde a maioria das plataformas de saúde mental derrapa, empurrando o usuário para um profissional diferente a cada sessão.
O acesso é pelo aplicativo Meu SUS Digital com login gov.br, em Miniapps, selecionando o Acolhe Mais Mais. O atendimento é para mulheres a partir de 18 anos, de segunda a sexta das 8h às 20h e aos sábados das 8h às 14h, no horário de Brasília.
Em caso de risco imediato, ligue 190 ou 192. A Central de Atendimento à Mulher, no 180, funciona 24 horas todos os dias.
É a prova de que saúde mental deixou de ser benefício e virou infraestrutura. Quem conseguir atender bem a mulher que cuida de todo mundo e quase nunca é cuidada vai encontrar a maior demanda reprimida do bem-estar no Brasil.
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