Direto de Basel, CEO da Oura afirma que wearables e inteligência artificial podem antecipar doenças, gerar insights clínicos e reduzir custos do sistema de saúde. Por Brunno Falcão | Especial direto de Basel, Suíça BASEL, Suíça — A próxima grande virada da medicina pode acontecer fora do consultório. Em vez de esperar sintomas, marcar consulta e só então investigar, a saúde preventiva tende a ganhar força com wearables capazes de acompanhar o corpo 24 horas por dia e com inteligência artificial interpretando sinais fisiológicos em tempo real. A visão foi defendida por Tom Hale, CEO da Oura, durante uma palestra em Basel, um dos principais encontros globais de inovação em saúde. A mensagem central: a combinação entre dados contínuos + IA pode transformar prevenção em prática diária — e não só em discurso. Presente no evento, o empresário brasileiro Brunno Falcão, fundador da Science Play, acompanha a agenda de healthtech e medicina digital na Europa com foco em traduzir as tendências para o ecossistema de profissionais de saúde no Brasil e em mapear o que pode ser aplicado em escala clínica, institucional e regulatória. Dos passos e sono à prevenção e predição de doenças Wearables já viraram parte do cotidiano, mas Hale defende que o setor está entrando em uma nova etapa. Se antes a discussão girava em torno de passos, calorias e sono, agora o foco passa a ser prevenção e predição no longo prazo. “Wearables 1.0 era fitness… e 3.0 é prevenção e previsão”, explicou o executivo, ao descrever a mudança de paradigma baseada em dados longitudinais de saúde. A tese é simples: exames pontuais mostram um recorte; sensores contínuos mostram tendência, padrão e desvio. O ponto-chave: baseline individual e por que isso muda tudo Um dos argumentos mais fortes da palestra foi sobre personalização real. Em medicina, “normal” costuma ser um valor de referência. Em dados contínuos, “normal” precisa ser o seu normal. Hale deu o exemplo de um colega com temperatura basal de 36,4°C — alguém que pode estar com febre mesmo quando a leitura chega a 37°C, considerada “normal” no padrão geral. A lógica por trás disso é o que sustenta a abordagem da Oura: “Cada um de vocês é biologicamente diferente… estabelecer o baseline é o que permite personalização”, disse Hale. Por que medir no dedo pode ser mais preciso do que no pulso Hale também reforçou o papel do formato e da qualidade do sinal. O anel mede dados fisiológicos no dedo — o que, segundo ele, melhora significativamente a leitura por fatores anatômicos e de contato. Ele argumenta que o dedo é um ponto mais consistente para captar pulso e sinais ópticos, com menos interferências comuns no pulso (como osso, variação de tecido, cabelo, ajuste frouxo e “poluição de luz”). A comparação é direta: em hospitais, o sensor de oximetria é colocado no dedo, pelo mesmo motivo. “O que é medido é gerenciado” mas o valor está no insight A Oura afirma capturar mais de 50 métricas e transformar isso em algo que o usuário consiga entender e aplicar no dia a dia. A tese não é despejar dados, mas entregar significado. “What’s measured is what’s managed” (“o que é medido é gerenciado”), afirmou Hale. A ênfase do CEO é que a tecnologia só faz sentido se mover comportamento e comportamento é o que muda desfecho. Nesse ponto, Hale compartilhou um trecho pessoal: disse que começou a usar o dispositivo ao enfrentar um período de estresse, desafios familiares e perda de sono, e que mudanças práticas (ambiente, álcool, café, rotina noturna) transformaram sua qualidade de vida. Detecção precoce: sinais de doença antes dos sintomas Um dos momentos mais comentados foi quando Hale citou estudos durante a pandemia. Em um grande estudo observacional com usuários, a análise indicou que sinais fisiológicos (temperatura, respiração, HRV e frequência cardíaca em repouso) apareciam dias antes do diagnóstico confirmado. “Conseguimos ver sinais… três dias antes do diagnóstico confirmado”, afirmou. A partir desse caminho, a Oura desenvolveu um recurso descrito como um “radar de sintomas”, que busca identificar desvios compatíveis com início de doença — não para diagnosticar qual doença é, mas para alertar que o corpo está mudando. Hale comparou isso a um “check engine light do corpo”: o aviso vem primeiro; a investigação vem depois. “AI vai mudar a saúde — mas não vai substituir médicos.” — Tom Hale, CEO da Oura (Frase destaque) IA na saúde: não é sobre substituir médicos – é sobre ampliar cuidado A palestra também enfrentou uma pergunta inevitável: a IA vai mudar a saúde? Vai substituir médicos? Hale foi direto: “AI vai mudar a saúde… mas não vai substituir médicos”, disse. O argumento é que saúde tem dimensão humana. “Care is care”: cuidado vai além de intervenção, exame e prescrição. O posicionamento da empresa é atuar como complemento ao sistema, expandindo o alcance do cuidado para fora das paredes da clínica. O que médicos querem: menos dados, mais significado No trecho de perguntas e respostas, Hale trouxe uma crítica comum em consultórios: médicos não querem ser soterrados por gráficos. “Quando falamos com clínicos, eles dizem: ‘não me dê mais dados; me dê insight’”, explicou. Essa diferença é crucial para o futuro da integração com sistemas de saúde: Hale citou o exemplo de apneia do sono: o wearable pode indicar risco com boa sensibilidade e especificidade, mas o caminho clínico passa por encaminhar o médico a investigar, não “diagnosticar dentro do app”. Integração com prontuário e modelos com seguradoras e governos A palestra também apontou para um movimento maior: wearables integrados a programas de saúde populacional. Hale citou iniciativas com seguradoras e parceiros (especialmente em saúde feminina e programas corporativos), e descreveu um cenário em que dados e tendências do usuário podem aparecer no prontuário eletrônico, aproximando a rotina do paciente do acompanhamento clínico. Na prática, a conta é econômica: se um programa consegue evitar uma internação, uma ida ao pronto-socorro ou uma intervenção tardia, parte do sistema já se paga — e abre espaço para ampliar acesso. Privacidade como
Por que a aptidão cardiorrespiratória virou “sinal vital” — e o que os relógios não contam sobre sua real capacidade física? Se eu tivesse que escolher um único número para estimar seu risco de morte precoce, não seria seu colesterol. Nem sua glicose. Muito menos o seu peso. Seria o seu VO₂ máximo. O VO₂ máximo mede sua capacidade de captar, transportar e utilizar oxigênio durante o exercício. Em termos simples: é o máximo que seu “motor” cardiovascular aguenta entregar de energia quando você exige dele. Quanto maior, melhor. E não estamos falando apenas de performance esportiva — estamos falando de longevidade. Em 2016, a American Heart Association publicou um posicionamento histórico propondo que a aptidão cardiorrespiratória fosse considerada um novo sinal vital. O motivo? Estudos robustos mostram que pessoas com maior VO₂ máximo vivem mais e têm menor risco de doenças cardiovasculares, câncer e mortalidade geral. Uma análise publicada no JAMA Network demonstrou que indivíduos com baixa aptidão física tinham risco de morte comparável — ou até maior — que fumantes e diabéticos. E entre pessoas com um ou mais fatores de risco cardiovascular (tabagismo, diabetes, colesterol alto), aquelas com maior VO2 máximo têm melhor prognóstico. Isso muda o jogo. A maior parte dos médicos avalia pressão arterial e frequência cardíaca em toda consulta, mas se esquece de avaliar formalmente a capacidade cardiorrespiratória. É como avaliar a saúde de um carro olhando apenas a lataria, sem nunca abrir o capô para avaliar o motor. Outro ponto interessante é que muitas doenças só se manifestam no esforço. E nesses casos, a análise em repouso pode gerar uma falsa segurança. O problema dos números “de pulso” Com a popularização dos smartwatches, muita gente passou a acompanhar o “VO₂ máximo” pelo relógio. A intenção é ótima. O problema é a precisão. Relógios e aplicativos estimam VO₂ com base em fórmulas matemáticas que combinam frequência cardíaca, velocidade, idade e peso. São estimativas indiretas. Funcionam razoavelmente para acompanhar tendências em pessoas jovens e saudáveis, mas erram — e erram bastante — em indivíduos com alterações metabólicas, uso de medicações ou menor condicionamento. A diferença pode chegar a 15–20%. E isso, clinicamente, é enorme. Não dá para avaliar sua saúde com um método que pode errar tanto assim. Ergoespirometria: analisando o motor em funcionamento A medida padrão-ouro do VO₂ máximo é a ergoespirometria (teste cardiopulmonar de exercício). Nesse exame, o paciente corre ou pedala usando uma máscara que analisa diretamente os gases respiratórios. Não é uma estimativa. É uma medida real. A ergoespirometria permite identificar limiares metabólicos, eficiência ventilatória e possíveis limitações cardíacas ou pulmonares. É como transformar um simples “check engine” em um diagnóstico detalhado do sistema inteiro. Para quem busca diagnóstico cardiovascular, performance, emagrecimento ou longevidade, essa informação é estratégica. Treinar sem conhecer seus limiares é como dirigir no escuro: você pode até chegar lá, mas não pelo caminho mais eficiente. O que você pode fazer hoje A boa notícia? Diferente da genética, o VO₂ máximo responde ao treino. Ele pode aumentar 10%, 20% ou mais com estratégia adequada. Seu coração é um músculo treinável. E talvez o verdadeiro “segredo” da longevidade não esteja em um suplemento novo, mas na capacidade do seu corpo de usar oxigênio com eficiência. Porque viver mais é importante. Mas viver com energia é essencial. Referências:– American Heart Association. Cardiorespiratory Fitness as a Clinical Vital Sign. 2016.– JAMA Network. Association Between Cardiorespiratory Fitness and Long-term Mortality. 2018. Renata Castro é cardiologista do esporte, diretora da Ipanema Health Club e referência em ergoespirometria e saúde cardiovascular no Brasil.
O Strava decidiu expandir o jogo e anunciou a chegada de cinco novos esportes que agora podem ser registrados diretamente no aplicativo: A mudança permite que usuários registrem essas atividades de forma mais precisa dentro do app. Até agora, quem praticava essas modalidades precisava registrar o exercício usando apenas a categoria genérica “treino”. Ou seja, o aplicativo não reconhecia exatamente qual esporte estava sendo feito. Com a atualização, basta selecionar o esporte antes de iniciar a atividade. Integração com outros aplicativos O Strava também confirmou que essas modalidades serão reconhecidas automaticamente quando o treino for gravado por aplicativos conectados. Isso inclui apps de atividade física que sincronizam dados com a plataforma. Na prática, o registro fica mais fiel ao que o usuário realmente está praticando. Segundo a empresa, esses esportes estavam entre os mais solicitados pelos usuários. A plataforma afirma que novas categorias devem ser adicionadas em breve. A estratégia reforça o posicionamento do Strava como rede social global de atividades físicas, indo além da corrida e do ciclismo. O que isso mostra? O universo fitness está cada vez mais diverso. Nem todo treino acontece na corrida ou na bike. Ao incluir esportes coletivos e até dança, o Strava amplia o radar para novas formas de movimento.
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