E se, em vez de bloquear uma proteína tóxica, fosse possível simplesmente cortá-la? O laboratório de David Baker, ganhador do Nobel de Química de 2024, usou inteligência artificial para desenhar enzimas que não existem na natureza e que fazem exatamente isso com proteínas ligadas a doenças como Alzheimer e ELA. O que realmente acontece aqui? O trabalho saiu em 14 de outubro na revista Nature, em dois artigos do Instituto de Design de Proteínas da Universidade de Washington, nos EUA, com participação de Donald Hilvert, da ETH Zurich. As enzimas criadas são proteases, uma espécie de tesoura molecular. Elas reconhecem um trecho específico de uma proteína e cortam exatamente naquele ponto. Em um dos estudos, a lâmina da tesoura é um íon metálico. Mais de um terço desses desenhos cortou a beta-amiloide, proteína associada ao Alzheimer, no lugar certo, 100 milhões de vezes mais rápido do que o corte aconteceria sem a enzima. A mesma família de enzimas também mirou a TDP-43, ligada à ELA. No segundo estudo, com outra estratégia química, 19% dos desenhos funcionaram, com reações até 30 milhões de vezes mais rápidas. E as estruturas criadas pela IA são bem diferentes das proteases encontradas na natureza. Por que isso pode mudar o jogo dos tratamentos? Hoje, a principal arma contra a beta-amiloide são os anticorpos. O problema é que o anticorpo se prende ao alvo e fica ali. A enzima trabalha diferente. Ela corta uma molécula, se solta e parte para a próxima, de novo e de novo. É a diferença entre marcar um jogador e limpar a quadra inteira. Os testes, porém, foram feitos só em tubo de ensaio e em células humanas, sem animais nem pessoas. Ainda há obstáculos sérios pela frente, como impedir que o sistema imune ataque a enzima antes de ela agir e conseguir ligar e desligar sua atividade conforme a necessidade. Um caminho que vai além do Alzheimer A equipe já trabalha em alvos ligados à malária e ao câncer. Baker também enxerga aplicações fora da medicina, como quebrar poluentes perigosos e resíduos plásticos. Para o mercado, o recado é claro. A IA deixou de apenas prever como as proteínas se dobram e passou a criar ferramentas biológicas sob encomenda. Isso abre espaço para uma nova geração de biotechs construídas sobre design computacional. Ainda não é remédio, e pode levar anos até virar um. Mas é um caminho novo para doenças que hoje não têm cura. A medicina do futuro é menos sobre descobrir moléculas por tentativa e erro e mais sobre desenhar, com precisão, exatamente aquela de que o corpo precisa. Quer continuar por dentro do que realmente está acontecendo no wellness? A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor. Se inscreva em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/
O gargalo da saúde mental no Brasil nunca foi só falta de diagnóstico. É falta de acesso. Um aplicativo criado na Faculdade de Medicina da USP para tratar ansiedade e depressão acaba de chegar às 18 Unidades Básicas de Saúde de Indaiatuba, no interior de São Paulo, e mostra como a tecnologia pode encurtar esse caminho dentro do SUS. Como o Conemo funciona? O Conemo, de CONtrole EMOcional, foi desenvolvido pelo Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental (CISM), sediado na Faculdade de Medicina da USP e apoiado pela Fapesp. O foco são adultos com sintomas leves a moderados de ansiedade e depressão, e o app também tem uma jornada voltada para insônia. A base é a terapia cognitivo-comportamental, especialmente a ativação comportamental, técnica que estimula a pessoa a retomar atividades prazerosas ou significativas no dia a dia. O conteúdo chega em jornadas semanais com áudios, textos e vídeos, organizadas em sete módulos. Num ensaio clínico publicado na JAMA, uma das revistas médicas mais respeitadas do mundo, o app reduziu sintomas de depressão. O acesso é simples. O paciente escaneia um QR Code nos cartazes da UBS e passa por uma triagem automática. Se o sistema identificar risco de suicídio, a equipe de saúde é avisada na hora. Por que o encaixe na atenção básica é a grande sacada? O diferencial do Conemo não está só no conteúdo, está no lugar onde ele opera. O app foi pensado para funcionar dentro da estratégia de saúde da família, vinculado à unidade de referência de cada paciente. Ele não é mais um app solto na loja disputando atenção com milhares de outros. É uma extensão do posto de saúde. Isso muda a conta. A terapia digital absorve casos leves e moderados e alivia a fila de atendimento, enquanto psicólogos e psiquiatras ficam livres para quem realmente precisa deles. O Conemo não substitui esses profissionais. Quadros mais graves seguem exigindo acompanhamento especializado. O tamanho do problema A demanda é gigantesca. No Brasil, só 25% dos adultos com ansiedade ou depressão recebem tratamento adequado. Em 2025, 546 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais, com depressão e ansiedade no topo da lista. Para as empresas, isso é produtividade perdida. Para o sistema público, é custo crescente. O projeto tem parceria com a prefeitura de Indaiatuba, a Unicamp e o Centro Universitário UniMAX, e o estudo de implementação também inclui a cidade vizinha de Jaguariúna. O próximo passo é criar uma startup na USP para levar o app a municípios de todo o país. É ciência pública virando produto escalável. Num mercado de saúde mental digital lotado de soluções pensadas para quem já pode pagar, o Conemo faz o caminho inverso e começa por quem mais precisa. É a prova de que escala em bem-estar não depende só de tecnologia sofisticada, mas de colocar a ferramenta certa no ponto certo da jornada do paciente. Quer continuar por dentro do que realmente está acontecendo no wellness? A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor. Se inscreva em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/
A briga mais lucrativa da indústria farmacêutica acaba de mudar de formato. O comitê de medicamentos da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) recomendou a aprovação do Foundayo, a pílula da Eli Lilly contra obesidade e diabetes tipo 2 em adultos. A decisão final cabe à Comissão Europeia, que costuma acompanhar o parecer do comitê em poucas semanas. Se isso se confirmar, a Lilly entra em quadra para disputar com a Novo Nordisk um terreno que até agora tinha dono. O que a EMA avaliou? O parecer foi adotado em 15 de outubro e divulgado no dia seguinte. Para a indicação de controle de peso, a agência analisou dois estudos com 4.740 adultos com obesidade ou sobrepeso. Depois de 72 semanas, quem tomou o Foundayo perdeu entre 5% e 11% do peso, conforme a dose. No grupo placebo, a perda ficou perto de 2%. Para diabetes tipo 2, foram outros quatro estudos, somando 3.765 adultos. O princípio ativo, a orforglipron, é uma molécula pequena que ativa o receptor do hormônio GLP-1, o mesmo alvo das canetas que viraram fenômeno. Os efeitos colaterais mais comuns são náusea, vômito e diarreia, concentrados no início do tratamento, quando a dose sobe. O remédio só é vendido com receita. Praticidade como arma competitiva A Novo Nordisk largou na frente. O Wegovy em comprimido foi aprovado na Europa em julho e, no segundo trimestre, faturou US$ 484,5 milhões. No mesmo período, o Foundayo somou US$ 98 milhões, quase cinco vezes menos. Nos Estados Unidos, onde chegou em abril, a pílula da Lilly também vem tendo adoção mais lenta que a rival. A resposta da Lilly é apostar na rotina do paciente. O Foundayo pode ser tomado a qualquer hora do dia, sem restrição de comida ou água. O concorrente exige jejum. Parece detalhe, mas em tratamento contínuo, adesão é o jogo inteiro. Quanto menos atrito no dia a dia, maior a chance de o paciente seguir até o fim. A dúvida do mercado é se essa conveniência basta para virar o placar. O que está em jogo para o mercado? O tamanho do prêmio explica a pressa. O mercado de remédios contra obesidade deve passar de US$ 100 bilhões até 2030, e a Organização Mundial da Saúde estima que obesidade e sobrepeso atingem mais de 2,5 bilhões de pessoas no mundo. A Lilly já busca aprovação da pílula em mais de 40 países. Na Europa, porém, aprovar é só o primeiro passo. Preço e reembolso serão definidos país a país, e é aí que a disputa comercial vai se decidir de verdade. Com dois comprimidos na prateleira, o tratamento da obesidade deixa de ser sinônimo de agulha e passa a competir por conveniência, preço e experiência do paciente. É a prova de que, no bem-estar, a inovação que ganha mercado nem sempre é a mais potente. Muitas vezes, é a que cabe melhor na vida real. Quer continuar por dentro do que realmente está acontecendo no wellness? A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor. Se inscreva em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/
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