arrow-left-square Created with Sketch Beta.

Caneta para músculos: nova moda promete combater perda de massa e envelhecimento

A velha lógica de que músculo só se conquista com anos de treino está prestes a ganhar concorrência de laboratório. Há pelo menos 40 substâncias em desenvolvimento no mundo com o objetivo de combater a perda de massa muscular ligada ao envelhecimento e ao emagrecimento. Nenhuma delas é anabolizante. E o gatilho por trás dessa corrida não é a academia. É a própria caneta emagrecedora.

Como essas moléculas soltam o freio do músculo

As candidatas mais avançadas bloqueiam a miostatina e a activina. A miostatina é uma proteína natural que funciona como freio, impedindo o crescimento exagerado do músculo. Quando desregulada por alterações metabólicas, sedentarismo e envelhecimento, seu excesso leva à sarcopenia. As drogas em teste bloqueiam esse freio ou enganam seu receptor nas células. A activina restringe o crescimento muscular pelo mesmo caminho e, quando bloqueada, permite regeneração significativa de massa. São em sua maioria anticorpos monoclonais, e as mais adiantadas em testes com voluntários são apitegromab, da Scholar Rock, bimagrumab, da Eli Lilly, e trevogrumab, da Regeneron. Apitegromab e bimagrumab já estão em ensaios de fase 3.

O contexto demográfico explica a pressa. Como observa Felipe Henning Gaia, chefe do Serviço de Endocrinologia Oncológica do A.C.Camargo e presidente da regional paulista da SBEM, a expectativa de vida no Brasil saltou de 36 anos em 1925 para 82 anos em 2025, sem que o corpo humano acompanhasse esse ritmo. Você vive mais, mas seu músculo não foi avisado.

O verdadeiro motor dessa corrida chama-se GLP-1

Aqui está o ponto que muita gente do setor ainda não conectou. Um estudo publicado na Lancet em 2024 apontou que algo entre 25% e 39% do peso perdido com tratamento à base de GLP-1 é massa magra, não gordura. Ou seja, a categoria mais lucrativa da saúde global criou, sozinha, um problema clínico gigantesco. E agora quer vender a solução dele.

Os primeiros dados vão nessa direção. Em estudo de fase 2 com pessoas com obesidade, a Regeneron informou que a combinação de trevogrumab com semaglutida evitou aproximadamente metade da perda de massa magra observada com semaglutida sozinha após 26 semanas. Com bimagrumab associado à semaglutida, a fração de massa magra dentro do peso perdido caiu para cerca de 7% em fase 2, embora desfechos funcionais ainda sejam escassos. O ensaio de fase 2 patrocinado pela Eli Lilly reuniu 507 adultos com sobrepeso ou obesidade. São resultados preliminares que ainda precisam de estudos maiores.

Onde está a oportunidade para quem vende treino

Se você olha esse movimento como ameaça, está lendo o tabuleiro errado. O mercado global de incretinas, que inclui os GLP-1, pode alcançar 200 bilhões de dólares por ano até 2030, segundo o J.P. Morgan, com até 30 milhões de americanos usando esses medicamentos até o fim da década. Cada um desses usuários é um cliente em potencial para preservação de massa magra.

O mercado adjacente já se organizou. O segmento de programas de fitness e preservação muscular como acompanhamento de GLP-1 foi avaliado em cerca de 4,2 bilhões de dólares em 2025 e projeta crescimento de 20% ao ano até chegar a 22,1 bilhões em 2034. Cerca de 22% dos grandes planos de saúde corporativos americanos que cobrem GLP-1 já incluem algum benefício estruturado de atividade física, e a recuperação de peso após a interrupção do medicamento afeta entre 65% e 70% dos pacientes sem suporte adequado de estilo de vida.

Traduzindo para o seu negócio. O medicamento resolve a balança e cria a demanda por músculo, adesão e reganho controlado. Isso é serviço, e serviço é onde academias, estúdios, nutrição e plataformas digitais ganham dinheiro.

Se aprovados nos Estados Unidos, alguns desses medicamentos podem chegar ao Brasil a partir de 2028 ou 2029, e os especialistas reforçam que essas terapias não substituem a atividade física. É o estímulo do treino que ativa o músculo, e sem ele o ganho não se sustenta.

O bem-estar do futuro é menos disputa entre remédio e treino e mais construção de protocolo combinado. Quem entender que a caneta é porta de entrada, e não linha de chegada, vai ocupar o espaço mais valioso dessa cadeia, que é o acompanhamento contínuo de quem já decidiu investir no próprio corpo.

Quer continuar por dentro do que realmente está acontecendo no wellness?

A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor.

Se inscreva em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/