O lema no pain no gain comandou a cultura de treino masculina por décadas. Ferro pesado, carga alta, dor como prova de esforço. Esse roteiro está perdendo terreno. O interesse de homens por ioga e pilates cresceu mais de 20% no Brasil nos últimos anos, e o movimento não é moda passageira de rede social. É uma mudança na definição do que conta como treino de verdade.
O que a musculação sozinha não entrega
As duas práticas trabalham mobilidade, força do centro do corpo e controle da respiração. São exatamente as três coisas que uma rotina só de musculação deixa de fora. E são também as três coisas que passam a doer quando você chega nos quarenta e descobre que carga máxima no supino não protege sua coluna lombar.
A conversa sobre treino saiu da estética e entrou em longevidade, dor nas costas e qualidade do sono. Mobilidade deixou de ser aquele alongamento de dois minutos antes da série e virou item de prevenção, com lugar próprio na semana. Aula em sala climatizada a 40 graus e postura de equilíbrio pararam de ser lidas como exercício leve, porque quem tenta uma vez descobre que não são.
O dinheiro se moveu antes da cultura
Os números já sinalizavam esse caminho. A participação em aulas de ioga, pilates e mobilidade cresceu 27% entre 2022 e 2024, puxada principalmente por estúdios boutique, segundo o levantamento de tendências da ACSM. No Brasil o salto foi mais violento. Os check-ins de pilates registrados pela Wellhub subiram 313% entre 2020 e 2024, com alta de 141% só entre 2022 e 2024.
Globalmente, os estúdios de ioga e pilates movimentaram 120,9 bilhões de dólares em 2024 e devem chegar a 520,6 bilhões até 2035, avançando a uma taxa composta de 14,3% ao ano, segundo a Allied Market Research. Nos Estados Unidos, dados da Sports & Fitness Industry Association mostram que os adeptos de pilates cresceram 40% entre 2019 e 2024, contra 23,6% da ioga no mesmo período.
E a fatia masculina dentro disso já apareceu lá fora. Na rede Life Time, 25% dos praticantes de pilates são homens, contra 16% em 2017. A Equinox registrou aumento de 47% de homens nas aulas de pilates solo desde 2019. Atletas de elite empurraram a barreira, com Kevin Durant creditando ao pilates parte da sua reabilitação de tendão de aquiles.
A barreira que caiu foi cultural, e isso abre espaço
O tapete de ioga deixou de ser território exclusivo de um público. O que segurava a entrada masculina não era dificuldade técnica nem falta de benefício comprovado, era leitura social. Pilates foi vendido por décadas como o treino de corpo longo e magro, e essa embalagem afastou metade do mercado potencial.
Para quem opera estúdio, academia ou plataforma corporativa, o recado é direto. Existe um público que já paga por treino, já tem hábito consolidado e agora está procurando o que a musculação não resolve. Ele não precisa ser convencido a se exercitar, precisa ser convencido de que aquele espaço é para ele. Isso é comunicação, horário, formato de aula e composição de turma, não é ciência do exercício.
Quando uma prática de mais de um século é reposicionada como ferramenta de longevidade e desempenho, ela para de competir por uma fatia e passa a criar mercado novo. O treino do futuro é menos sobre quanto você levanta e mais sobre quantos anos você consegue continuar levantando.
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