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Estudo prova que existe desiguildade no acesso à atividade física em São Paulo

Culpar a falta de motivação é a saída mais confortável para explicar por que uma parte enorme da população não se exercita. Também é a mais errada. Uma pesquisa da USP que acompanhou os mesmos 978 moradores de São Paulo por dez anos mostra que a prática de atividade física no tempo livre está colada na condição social de quem pratica, e que a distância entre os grupos aumentou justamente no período em que todo mundo passou a falar mais de bem-estar.

O número bom que esconde o gap crescente

Entre 2014 e 2015, 51% das pessoas do grupo de menor vulnerabilidade social se exercitavam no tempo livre, contra 29% entre as mais vulneráveis. Em 2023 e 2024, os dois grupos melhoraram, mas a distância continuou. Foram 65% contra 39%.

Repare no detalhe que muda a leitura. Os dois números subiram, então qualquer relatório superficial venderia isso como avanço. Só que o intervalo entre eles passou de 22 para 26 pontos percentuais. O crescimento do mercado de bem-estar na última década não distribuiu acesso, concentrou. O estudo, publicado no International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity, identifica o grupo mais favorecido como homens brancos com maior escolaridade, e o mais vulnerável como mulheres pretas, pardas, amarelas ou indígenas com menos anos de estudo.

O que separa os dois grupos não é vontade, é infraestrutura

A pesquisa aponta falta de parques e ciclovias, distância até os locais de prática, calçadas em mau estado e medo da violência. Some a isso a distribuição desigual do trabalho doméstico, que tira horas do dia de quem já ganha menos, e a falta de iluminação em bairros periféricos, que transforma correr à noite em risco calculado.

Tem um dado dentro do estudo que fecha o argumento. Quando os pesquisadores olharam a caminhada como meio de transporte, e não como lazer, a vulnerabilidade social deixou de ter associação estatística relevante. Essa modalidade subiu de 61,8% para 71,6% no período e é maior entre homens jovens, pretos e pardos com ensino médio. Ou seja, quem tem menos acesso ao exercício por escolha caminha muito por necessidade. O corpo se move, o que falta é o ambiente que permite mover por vontade própria.

São Paulo tem cerca de 963,7 mil domicílios em áreas de alta ou muito alta vulnerabilidade, onde vivem 22,5% da população da cidade, segundo o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social. Esse é o tamanho do território que a economia do bem-estar simplesmente não endereça.

Por que isso é problema de mercado, e não só de política pública

A atividade física entrou nas recomendações de saúde como remédio para pressão alta, diabetes e depressão. No Brasil, 42,3% dos adultos atingiam o mínimo de 150 minutos semanais de atividade moderada em 2024, segundo o Vigitel, e a meta é chegar a 50,7% até 2030. No mundo, cerca de 1,8 bilhão de adultos não alcançam o patamar recomendado pela OMS, e a vida inativa está associada a aproximadamente 5 milhões de mortes por ano.

Quem paga essa conta são os planos de saúde, as empresas que arcam com afastamento e queda de produtividade, e o sistema público. Enquanto o setor de wellness disputa a mesma clientela de alta renda com estúdio boutique, aplicativo premium e vestível caro, existe uma base gigantesca de demanda reprimida que nenhum produto atual alcança, porque o obstáculo não está no preço da mensalidade, está a 500 metros da porta de casa.

E aqui entra a parte prática. O próprio grupo da USP constatou que ter ciclovia a menos de 500 metros da residência foi fator determinante para as pessoas pedalarem mais. Infraestrutura urbana funciona como produto de saúde. Quem entender isso primeiro, seja incorporadora, operadora de saúde ou plataforma de benefício corporativo, para de vender acesso a equipamento e passa a vender acesso a ambiente.

É a prova de que longevidade não se distribui por campanha de conscientização. Ela se distribui por calçada, iluminação, parque e segurança, e o mercado que ignorar isso vai continuar crescendo dentro do mesmo bairro.

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