A corrida pelo chip cerebral acaba de ganhar um primeiro colocado, e ele não se chama Neuralink. A agência reguladora de medicamentos da China aprovou, em 13 de março de 2026, a interface cérebro-computador invasiva da Neuracle, a primeira do tipo liberada comercialmente no mundo. O dispositivo se chama NEO e foi criado pela Neuracle, de Xangai, com apoio de pesquisa da Universidade Tsinghua.
Como funciona um chip que devolve a mão ao paciente?
O NEO tem o tamanho de uma moeda. Ele fica sob o crânio, apoiado na camada protetora externa do cérebro, sem penetrar o tecido cerebral. Carrega oito eletrodos.
A lógica é simples de explicar e difícil de executar. O paciente imagina que está mexendo a mão. O chip capta esse sinal, um computador traduz a intenção e uma luva robótica faz o movimento. Nos testes, 32 pessoas com lesão na coluna cervical voltaram a segurar objetos, e algumas voltaram a comer e beber sozinhas. Sessões diárias de treino de duas horas e meia já mostraram ganhos mensuráveis na capacidade de agarrar.
A virada de chave foi escolher o caminho mais modesto
Aqui está a jogada estratégica. Enquanto a Neuralink aposta em fios que entram no cérebro, a Neuracle preferiu ficar na superfície. O NEO capta menos detalhes, mas tem risco menor e é muito mais fácil de aprovar. Ao reduzir o risco físico, o dispositivo caiu numa faixa regulatória mais leve, e essa única decisão de design encurtou anos do processo.
O resultado é um placar curioso. A empresa de Elon Musk constrói o implante mais potente. A chinesa entregou o que dava para aprovar. A Neuralink segue sem aprovação comercial completa nos Estados Unidos, ainda em fase de testes.
Aprovado, reembolsado e já dentro do paciente
O que mais chama atenção para quem olha o mercado não é o chip, é o ecossistema em volta dele. Em até 48 horas após a aprovação, o órgão chinês de seguro-saúde emitiu um código nacional de reembolso para o dispositivo. Ou seja, o NEO entrou no sistema público de saúde da China quase no mesmo dia em que ganhou licença para ser vendido.
E já saiu do papel. Cirurgiões do Hospital Huashan, em Xangai, fizeram a primeira cirurgia do mundo com uma interface cérebro-computador aprovada comercialmente. Tudo isso num mercado que chegou a cerca de 3,2 bilhões de yuans, algo perto de US$ 446 milhões, em 2024 só na China.
Os riscos continuam no tabuleiro. Existem os perigos de qualquer cirurgia e uma pergunta ainda sem resposta clara sobre quem guarda e controla os dados do cérebro. Esses sinais revelam intenção, estados emocionais e condições de saúde, o que transforma privacidade neural em pauta urgente.
É a prova de que, na neurotecnologia, vencer a corrida nem sempre significa ter a tecnologia mais sofisticada. Significa chegar primeiro ao paciente, com aprovação, reembolso e um caminho viável de escala. O chip saiu do laboratório, e o mercado de reabilitação nunca mais vai olhar para a paralisia da mesma forma.
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