Depois do boom dos medicamentos GLP-1, a corrida agora é outra: descobrir o que vem depois. Em um mercado que já movimenta dezenas de bilhões de dólares, empresas de biotecnologia estão olhando além da perda de peso rápida e buscando mecanismos biológicos mais profundos, capazes de sustentar resultados no longo prazo.
É nesse contexto que a Gordian Bio, biotech focada em longevidade, anunciou uma nova colaboração de pesquisa com a Pfizer para identificar novos alvos terapêuticos para obesidade — desta vez, estudando genes diretamente no tecido adiposo vivo.
A parceria usa uma plataforma que permite testar centenas de genes ao mesmo tempo dentro de tecidos reais, algo que até pouco tempo atrás era lento, caro e feito um alvo por vez. A promessa é simples, mas ambiciosa: entender o comportamento da gordura onde a doença realmente acontece.
Do GLP-1 ao “o que vem depois”
O sucesso de medicamentos como Wegovy e Ozempic abriu o mercado, mas também expôs seus limites. Apesar da eficácia, muitos pacientes recuperam peso após interromper o tratamento, levantando uma pergunta central para a indústria: o que sustenta a obesidade no nível celular?
Segundo Francisco LePort, CEO da Gordian Bio, é exatamente isso que a parceria tenta responder.
“Existe um interesse enorme em mecanismos além do GLP-1, especialmente aqueles ligados à memória metabólica da gordura e ao funcionamento dos adipócitos”, explica. “A indústria inteira está tentando entender como agir mais perto da raiz do problema.”
Por que estudar gordura viva muda o jogo
Grande parte da descoberta de medicamentos ainda depende de modelos artificiais: células isoladas, tecidos fora do corpo ou análises de um único gene por vez. O problema é que a obesidade não funciona assim.
Ela envolve múltiplos tecidos, inflamação crônica, resistência à insulina e comunicação constante entre órgãos.
A plataforma da Gordian foi criada justamente para resolver esse gargalo. Ela permite observar, ao mesmo tempo, como diferentes alterações genéticas afetam o comportamento da gordura dentro de um organismo vivo.
O foco inicial da parceria com a Pfizer está no tecido adiposo visceral — a gordura profunda associada a maior risco metabólico e cardiovascular, mas que também é uma das mais difíceis de estudar fora do corpo.
“Esse é o tecido mais relevante biologicamente e, ao mesmo tempo, o mais negligenciado por limitações técnicas”, diz LePort. “Conseguir estudar essas alterações em um ambiente real é um avanço enorme.”
Mais rápido, mais amplo, mais próximo da biologia humana
Historicamente, validar alvos genéticos in vivo podia levar anos. Com a abordagem da Gordian, centenas ou até milhares de genes podem ser avaliados em poucos meses.
Para a Pfizer, isso significa priorizar alvos com base em evidências biológicas reais, não apenas hipóteses. Para a Gordian, os dados alimentam um banco crescente de informações sobre doenças cardiometabólicas — área central para sua estratégia em longevidade.
Obesidade, diabetes, insuficiência cardíaca e doença renal crônica compartilham os mesmos caminhos biológicos. Não por acaso, cerca de metade das mortes relacionadas ao envelhecimento está concentrada nesse eixo cardio-renal-metabólico.
O que isso diz sobre o futuro da longevidade
Mais do que uma parceria pontual, o acordo sinaliza uma mudança de mentalidade na indústria: sair da lógica de “tratar sintomas” e avançar para intervenções que preservem a resiliência celular ao longo do tempo.
A Gordian já adaptou sua plataforma para estudar gordura, fígado, coração, pulmão e articulações — e agora avança para o rim. Tudo isso em pouco mais de um ano.
Ao mesmo tempo, a empresa segue desenvolvendo seu próprio pipeline, com destaque para um candidato em osteoartrite que já avançou nas interações iniciais com o FDA.
A tese por trás do movimento
Se os GLP-1 mostraram que a obesidade pode ser tratada, a próxima fronteira é entender como evitar o ciclo de perda e recuperação de peso. Isso exige olhar menos para o prato e mais para o comportamento das células.
A aposta da Gordian e da Pfizer aponta nessa direção: testar a biologia onde ela acontece, em escala, e antes que o dano seja irreversível.
No novo jogo da obesidade, perder peso foi só o começo. Sustentar saúde ao longo do tempo é o verdadeiro prêmio.
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