Durante muito tempo, dificuldade para engravidar foi tratada quase exclusivamente como um tema feminino. Os dados mais recentes do Sistema Único de Saúde mostram que essa narrativa já não se sustenta e talvez nunca tenha feito sentido.
Em uma década, os atendimentos relacionados à infertilidade masculina no SUS mais que dobraram. Foram 725 registros em 2015, contra 2,5 mil em 2024, o maior número da série histórica. Só até setembro de 2025, outros 1,5 mil atendimentos já haviam sido contabilizados.
Os números não significam, necessariamente, que mais homens se tornaram inférteis de forma repentina. Mas indicam algo importante: mais homens estão procurando ajuda, e os fatores que afetam a fertilidade masculina estão cada vez mais presentes no dia a dia.
O que mudou para esses números crescerem tanto?
Especialistas explicam que essa curva é resultado de três movimentos que se somam.
O primeiro é a quebra gradual de tabus. Falar sobre fertilidade masculina deixou de ser um assunto proibido e passou a entrar na pauta de casais, consultórios e políticas públicas.
O segundo é o maior acesso aos serviços de saúde após a pandemia. A partir de 2021, com a retomada dos atendimentos, muitos homens que haviam adiado exames e consultas finalmente entraram no sistema.
O terceiro, e talvez mais preocupante, é o aumento de fatores que prejudicam a saúde reprodutiva masculina. Obesidade, sedentarismo, uso de anabolizantes, estresse crônico, poluição ambiental e o adiamento da decisão de ter filhos.
Infertilidade masculina não é exceção, é parte do problema
Na prática clínica, o fator masculino está presente em até metade dos casos de dificuldade para engravidar, seja como causa principal ou associado a fatores femininos.
Ainda assim, por muitos anos, a investigação começou quase sempre pela mulher. Hoje, os médicos são claros: isso atrasa o diagnóstico e reduz as chances de soluções mais simples.
A fertilidade é uma equação do casal. Ignorar o lado masculino é perder tempo.
Estilo de vida pesa mais do que genética
Embora existam causas médicas bem conhecidas, como alterações nas veias dos testículos ou infecções antigas, o que mais pesa hoje são fatores ligados ao estilo de vida.
Excesso de gordura corporal favorece inflamação crônica, altera hormônios e aumenta a temperatura na região dos testículos, um ambiente ruim para a produção de espermatozoides.
Sedentarismo, álcool, tabaco e drogas aumentam o estresse celular e prejudicam a qualidade do sêmen. A exposição frequente a poluentes, agrotóxicos e calor intenso também entra nessa conta.
Na maioria dos casos, não é um único fator, mas um acúmulo silencioso de hábitos e exposições ao longo dos anos.
A idade também conta para os homens
Outro mito que os dados ajudam a derrubar é o de que a fertilidade masculina é ilimitada.
Após os 40 anos, a qualidade do sêmen começa a cair de forma progressiva. O tempo para engravidar tende a aumentar, e o risco de alterações genéticas nos espermatozoides também cresce.
Isso não significa que homens mais velhos não possam ter filhos, mas reforça que adiar a paternidade tem impactos reais e pouco discutidos.
Um problema silencioso, mas tratável
Na maioria das vezes, a infertilidade masculina não dá sinais. O homem se sente saudável, mantém vida sexual normal e só descobre o problema depois de meses ou anos tentando engravidar.
A boa notícia é que muitos casos são reversíveis. Mudanças de estilo de vida, tratamento de infecções e correção de alterações comuns podem melhorar os parâmetros de fertilidade ao longo de alguns meses.
Quando isso não é suficiente, entram as técnicas de reprodução assistida, mas elas não são, nem de longe, o primeiro passo.
O que esses dados realmente mostram
Mais do que falar de infertilidade, os números do SUS revelam algo maior: a saúde do homem está mudando de lugar na conversa.
Fertilidade deixou de ser um tema distante para se tornar um indicador claro de saúde metabólica, hormonal e ambiental. Quando ela falha, geralmente não é por acaso. É um sinal de alerta.
Cuidar da fertilidade masculina não é só sobre ter filhos. É sobre entender o corpo, rever hábitos e agir antes que o problema apareça em outras áreas da saúde.
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