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O excesso de prescrição de remédios para dormir: Erros que rendem consultas vazias de propósito e de resultados

Cada vez mais a indústria farmacêutica comemora recordes de venda de medicações para dormir. Eles brindam a automação da consulta médica, que não valoriza a conexão, a avaliação centrada no paciente, o raciocínio clínico da história pregressa, atual e do que importa para a pessoa, seus valores, virtudes e desejos, não planeja junto e menos ainda acompanha toda a evolução.

Esse modelo pode fazer toda a diferença.
Caminhar com o paciente que dorme mal ou que tem insônia pode ser árduo, cansativo e cheio de ajustes durante o percurso.

Entregar uma receita controlada e liberar seu uso sem outras ferramentas para o auto manejo dos pensamentos, sentimentos, comportamentos e do perfil do indivíduo, sem reconhecer nele um poço sem fundo de ansiedade, hipervigilância, hiperalerta e controle, é colocar um pedreiro na obra sem portar uma ferramenta sequer, um pedreiro que geralmente tem pouco ou nenhum repertório para seguir além da única oferta que lhe fizeram: o remédio.

Um erro muito comum é tratar condições crônicas de saúde como doenças agudas. Simplificar a beleza e complexidade do humano.
Costumo tratar pneumonia em 10 a 15 dias. Revejo em 30 dias e dou alta.
Distúrbios do sono não.

Costumo brincar com meus pacientes que conviveremos por um bom pedaço da vida deles. Sabe por que? Geralmente quando entro na discussão de tratar problemas com o sono, decido saber como é a vida de quem está ao meu lado na mesa de conversa, nesse eleito encontro clínico que costumo nomear atualmente as antigas consultas médicas que fazia.

Hoje promovo mudança de estilo de vida, sempre um processo, nunca como um evento pontual. Avalio vida. Avalio seus pilares: sono, alimentação, movimento, conexões sociais, espiritualidade, uso de substâncias tóxicas e gerenciamento de estresse.

O centro da consulta é o paciente e a sua vida.

O modelo é diferente.

  • Nunca uma consulta.
  • Nunca só uma explicação.
  • Nunca só uma prescrição.

Isso, e remédio sozinho, não resolve.

O que sempre faço na minha prática clínica de Medicina do Sono? Sempre um
Plano de cuidado, um acompanhamento.

A ciência do comportamento, que tenho estudado nos últimos tempos, mostra que mudar não é um evento.
É um processo.

Mudanças reais acontecem ao longo do tempo, com estrutura, acompanhamento e estratégias diferentes em cada fase da jornada.

Esse processo costuma acontecer em quatro etapas claras:

  • Desejo: Quando você começa a perceber que algo precisa mudar e encontra motivos internos para querer essa mudança.
  • Decisão: Quando a intenção vira compromisso. Quando o “eu sei que preciso” se transforma em “eu vou fazer”.
  • Plano: Aqui a mudança deixa de ser abstrata. Ela passa a ser organizada em passos possíveis, personalizados e compatíveis com a sua rotina e a sua vida real.
  • Ação: É o momento de colocar em prática. E também o momento em que surgem dúvidas, obstáculos, recaídas e a necessidade de ajustes.
    Grande parte da frustração acontece quando essas etapas são ignoradas.

Quando se tenta seguir um plano sem ainda ter desejo.
Ou quando se cobra ação sem que exista uma decisão bem construída.

Essa conversa é um alarme e um pouco do que faremos em nossos encontros por aqui na coluna do Fitfeed. Sono é o pilar base do estilo de vida para termos mais longevidade e vitalidade. E ele, como escrevi no livro ‘Super Sono’ da Editora Gente, deve ser construído em nossos dias de convívio com o outro, com a gente mesmo e com o mundo.

Mudança sustentável não acontece por pressão.
Ela acontece quando existe desejo, e ele encontra sentido, apoio e continuidade.

O sono é nosso maior super poder mas a decisão de começar a conquistá-lo é sua. Está pronto?