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Você está comendo menos, mas está se nutrindo bem?

Durante anos, a ideia dominante na cultura de saúde e bem-estar foi simples: comer menos é comer melhor. Essa lógica tem alguma base, especialmente quando o contexto é excesso calórico e emagrecimento. Mas ela esconde um problema que a ciência documenta com crescente clareza: é perfeitamente possível reduzir a ingestão de calorias e, ao mesmo tempo, privar o corpo de nutrientes essenciais.

Existe até um nome técnico para isso. A FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, define como “fome oculta” a deficiência de um ou mais micronutrientes mesmo quando a ingestão calórica é suficiente. Ela não dói. Não aparece em exames básicos. Mas avança silenciosamente, comprometendo imunidade, cognição e saúde metabólica antes de qualquer sintoma óbvio.

A escala do problema é maior do que parece

Em agosto de 2024, o The Lancet Global Health publicou o primeiro estudo global sobre consumo inadequado de micronutrientes em escala mundial, coordenado pela Universidade de Harvard em parceria com a Universidade da Califórnia e a Aliança Global para Melhor Nutrição. A pesquisa analisou a ingestão de 15 vitaminas e minerais essenciais em 185 países. Os resultados foram expressivos: mais de 5 bilhões de pessoas consomem quantidades insuficientes de iodo, vitamina E ou cálcio. Mais de 4 bilhões têm ingestão inadequada de ferro, riboflavina, folato e vitamina C.

Não se trata de países em situação de fome. O estudo abarca populações com acesso regular à comida, mas cuja dieta entrega calorias sem entregar nutrição suficiente.

No Brasil, o cenário tem suas especificidades. Um estudo com mais de 1.800 adultos brasileiros, publicado na revista Nutrients em 2024, encontrou probabilidade de inadequação acima de 90% no consumo de vitamina D e vitamina E. E, como apontamos aqui anteriormente, o consumo médio de fibras no Brasil é de cerca de 13,5 g por dia, com 90,1% da população abaixo da recomendação de 25 g diários da OMS. São lacunas amplas, recorrentes e pouco visíveis no dia a dia.

O paradoxo da dieta moderna

Aqui está o ponto que vale observar com mais atenção. Uma pessoa que reduz o consumo de alimentos ultraprocessados e diminui as porções pode estar, sim, melhorando sua relação com as calorias. Mas se o que entra no lugar não tem densidade nutricional, a equação continua desequilibrada.

Os ultraprocessados têm uma característica precisa: alta densidade calórica com baixa densidade nutricional. O corpo recebe energia, a fome desaparece, mas vitaminas, minerais e fibras não chegam. Os sinais disso são difusos. Cansaço frequente, dificuldade de concentração, imunidade mais baixa, queda de cabelo. Sintomas que qualquer pessoa ocupada atribui à correria, ao estresse ou “a uma fase ruim”. Quando na verdade podem ser alertas nutricionais.

E há outro aspecto que complica ainda mais essa conta: o gap entre a percepção de comer bem e o que de fato o corpo recebe. Há uma diferença entre seguir a estética do saudável e realmente nutrir o organismo. Cortar o açúcar, reduzir as porções, evitar fritos são escolhas válidas, mas podem coexistir com déficit de magnésio, zinco, vitamina B12 ou folato, sem que a pessoa sinta qualquer sinal imediato.

A pergunta que faz mais diferença

O que muda na prática com esse entendimento? A questão relevante deixa de ser apenas “quanto eu estou comendo?” e passa a ser “o que o que estou comendo está entregando ao meu organismo?”.

O conceito que organiza isso é o de densidade nutricional: a quantidade de vitaminas, minerais, fibras e proteínas que um alimento entrega por caloria. Alimentos de alta densidade nutricional fazem muito mais por muito menos volume. Alimentos de baixa densidade nutricional, mesmo consumidos com moderação, acumulam lacunas que o corpo sente antes de a pessoa perceber.

Esse entendimento começa a mudar parte do debate no mercado de alimentos. A demanda por produtos que entregam mais nutrição por porção, e não apenas menos calorias, é crescente. A indústria chama isso de funcionalidade. Mas vale a distinção: há produtos que realmente entregam densidade nutricional, e há produtos que apenas sinalizam saudabilidade no rótulo. Quem entende a diferença toma decisões de compra e de consumo muito mais inteligentes.

A narrativa de “comer menos” já cumpriu seu papel ao chamar atenção para o excesso calórico. Agora ela precisa evoluir. Comer melhor é uma medida concreta: mais vitaminas, mais minerais, mais fibras, mais proteína de qualidade por refeição. É olhar para o que o alimento entrega, não apenas para o que ele evita.

Se você já controla o quanto come, a próxima pergunta é fundamental: o que está entrando está, de fato, nutrindo o seu corpo?

*Paulo Ibri, CEO e cofundador da Typcal, é formado em Marketing pela ESPM em São Paulo. O empreendedor possui mais de 15 anos de experiência em marketing e vendas para bens de consumo. É autor do livro Alta Performance & Impacto pela editora Alta Books. Já foi Gerente Nacional de Distribuição da Red Bull e Head de Marketing da Verde Campo (Coca-Cola).

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