arrow-left-square Created with Sketch Beta.

Proteinmaxxing: mais proteína nem sempre é melhor

Você tomou proteína no café, no lanche e ainda bebeu o shake, e continua sem saber se isso faz alguma diferença. O conceito é simples: consumir o máximo de proteína possível para acelerar o ganho de massa muscular, aumentar a saciedade, emagrecer e envelhecer melhor. O mercado respondeu rapidamente. Hoje encontramos barras, cafés, sorvetes, iogurtes, cereais e até água enriquecidos com proteína.

Mas existe uma pergunta que precisa ser feita: mais proteína realmente significa mais saúde?

A resposta é mais complexa do que os vídeos de poucos segundos costumam sugerir.

A proteína é um nutriente indispensável. Ela fornece os aminoácidos necessários para a síntese muscular, participa da produção de hormônios, enzimas, anticorpos e tecidos, além de exercer papel importante na recuperação após o exercício e na manutenção da massa magra ao longo do envelhecimento. Em idosos, por exemplo, uma ingestão proteica adequada está associada à preservação da força, da funcionalidade e da independência.

O problema começa quando confundimos um nutriente essencial com a ideia de que seu consumo deve ser ilimitado.

O organismo possui uma capacidade finita de utilizar aminoácidos para estimular a síntese de proteínas musculares em cada refeição. Após determinado ponto, aumentar ainda mais a quantidade ingerida não significa um aumento proporcional da construção de músculo. Esse fenômeno, conhecido como “platô da síntese proteica muscular”, explica por que qualidade, distribuição das refeições e estímulo do treinamento resistido são tão importantes quanto a quantidade total consumida ao longo do dia.

Hoje, as principais diretrizes sugerem que indivíduos saudáveis e sedentários necessitam de aproximadamente 0,8 g de proteína por quilograma de peso corporal ao dia. Entretanto, essa recomendação representa apenas o mínimo necessário para evitar deficiência. Para pessoas fisicamente ativas, praticantes de musculação, atletas e idosos, as evidências apontam benefícios consistentes com ingestões entre aproximadamente 1,2 e 2,0 g/kg/dia, dependendo do objetivo, da intensidade do treinamento e do contexto clínico.

Isso significa que consumir mais proteína pode, sim, ser vantajoso. Mas apenas até determinado ponto.

Acima das necessidades individuais, o benefício tende a diminuir progressivamente. Em indivíduos que já atingem uma ingestão adequada, elevar ainda mais o consumo dificilmente produz ganhos adicionais relevantes de massa muscular ou desempenho. Em outras palavras, existe uma diferença importante entre consumir proteína suficiente e consumir proteína em excesso.

Outro equívoco frequente é imaginar que apenas a quantidade importa. A qualidade da proteína também merece atenção. Alimentos como ovos, leite, carnes, peixes e algumas proteínas vegetais combinadas fornecem todos os aminoácidos essenciais em proporções adequadas. Além disso, a presença de leucina — um aminoácido fundamental para ativar a síntese proteica muscular — faz com que algumas fontes sejam metabolicamente mais eficientes do que outras.

A distribuição da ingestão ao longo do dia também influencia a resposta do organismo. Concentrar praticamente toda a proteína apenas no jantar pode ser menos eficiente do que distribuí-la em três ou quatro refeições, especialmente em pessoas mais velhas, que apresentam uma menor sensibilidade anabólica dos músculos com o avanço da idade.

Naturalmente, surgem dúvidas sobre possíveis riscos de uma dieta rica em proteínas. Durante muitos anos acreditou-se que esse padrão alimentar poderia prejudicar os rins. Atualmente, as melhores evidências mostram que, em indivíduos com função renal normal, dietas hiperproteicas não demonstraram causar doença renal. Entretanto, em pessoas com doença renal crônica estabelecida, o excesso de proteína pode acelerar a progressão da doença e, por isso, a ingestão deve ser individualizada e acompanhada por profissionais de saúde.

Também vale lembrar que proteína não atua isoladamente. Construir músculo depende da combinação entre treinamento de força, ingestão energética adequada, sono de qualidade, recuperação e regularidade. Nenhum suplemento ou alimento rico em proteína substitui esses pilares.

Na prática clínica, observo dois extremos igualmente problemáticos. De um lado, pessoas que ingerem muito menos proteína do que necessitam, especialmente idosos e indivíduos em processo de emagrecimento. Do outro, pessoas que passam a acreditar que qualquer alimento só é saudável se vier acompanhado de grandes quantidades de proteína, transformando um nutriente essencial em uma obsessão.

A ciência aponta um caminho diferente. A pergunta não deveria ser “quanto mais proteína eu consigo consumir?”, mas sim “qual é a quantidade adequada para o meu organismo, meu nível de atividade física e meus objetivos?”.

Na medicina, assim como na nutrição, raramente o excesso representa a melhor estratégia. O verdadeiro benefício está em encontrar a dose certa. Quando falamos de proteína, mais importante do que consumir o máximo possível é consumir o suficiente — com qualidade, regularidade e dentro de um estilo de vida saudável.

Quer continuar por dentro do que realmente está acontecendo no wellness?

A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor.

Se inscreva em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/