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A heresia da ortopedia: o joelho também precisa dormir

Por décadas tratamos a osteoartrite como desgaste mecânico. A ciência começa a mostrar que o relógio biológico pode estar destruindo articulações em silêncio.

Numa análise crítica, penso que esse artigo que acabei de ler não é sobre osteoartrite (OA) e nem causas da OA. É muito mais sobre quebra de paradigma.

Aprendi que a OA acontece por desgaste mecânico, geralmente com o envelhecimento ou com a obesidade e prevê lesões articulares repetidas. Quase um mantra do desenvolvimento das lesões articulares crônicas.

Este artigo desmonta isso. Me faz refletir sobre a vida útil da cartilagem, da articulação.

Claro que tento pensar não reducionista, mas a nossa cartilagem vive em ciclos que se dividem em dia, sobreposta a carga mecânica, e a noite, com direito a recuperação e hidratação. As lesões articulares como na OA deixa de ser apenas mecânica. Passa a ser uma doença de falha de recuperação biológica.

A segunda ruptura é sobre a importância do relógio biológico ser um fator independente de degeneração articular. Visto que se osteoartrite fosse principalmente mecânica, quem deveria ter mais risco? Pessoas que fazem trabalho físico pesado, certo?

E por que? Teriam mais carga articular, mais microtrauma e mais desgaste.

Então se trabalho noturno fosse só um detalhe, o efeito deveria ser maior em quem já tem carga mecânica alta. Mas o estudo mostrou o contrário.

Quando os autores dividiram os trabalhadores em dois grupos:

a) Trabalho com carga física pesada frequente.
b) Trabalho com pouca carga física

O efeito do turno noturno foi muito mais forte no grupo sem trabalho físico pesado.

Entre aqueles que não executavam trabalho pesado, o trabalho noturno aumentou 43% risco de OA de joelho e 40% do risco de prótese de joelho.

E isso é surpreendente porque sugere que o dano do turno noturno não é principalmente mecânico, senão veríamos o maior risco no grupo com dupla agressão: o efeito do trabalho pesado e turno.

A terceira significativa ruptura na minha lógica articular-ortopédica (diga-se de passagem pequena, lembrando que sou pneumologista/intensivista/médico do sono), é que o desalinhamento circadiano é um fator de risco independente para osteoartrite.

Então o sono pode ser tão importante quanto dieta e atividade física para prevenir OA. Não depende de sobrecarga mecânica exclusiva.

O turno noturno não só cansa o trabalhador. Ele altera a biologia da articulação.

A cartilagem não sofre apenas com peso e impacto. Ela sofre principalmente quando o relógio biológico é quebrado.

Isso é quase uma heresia na ortopedia.

OA não é só de causa mecânica. Agora sabemos que é também:

• metabólica
• inflamatória
• circadiana

OA entra definitivamente e com força na medicina do estilo de vida além do clássico perder peso com movimento e dieta.

Resta saber se você está pronto para acreditar nisso.

Bibliografia:

Yanik EL, et al. Associations of Sleep and Shift Work with Osteoarthritis Risk. Arthritis Care Res (Hoboken). 2026 Jan 22. doi: 10.1002/acr.70040.