24 - 26 de Abril

Expo Center Norte - SP

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Aqui é o único lugar que eu não olho para o meu corpo

Uma cliente disse isso depois de uma aula de yoga. Aqui. No meu espaço.

Não disse “gostei do treino”. Não disse “me senti forte”. Disse que ali, naquele chão, naquela hora, ela não se olhava. Eu parei. Porque essa frase não era um elogio. Era um desabafo. Era alguém admitindo, sem perceber, que passa o resto do dia inteiro se vigiando.

Pensa no seu dia. Você acorda e já se vê. No espelho do banheiro, na câmera frontal que abre sem querer, no reflexo do elevador. Você se olha antes de sair. Se olha quando chega. Se olha no vidro do carro, na vitrine da rua, no quadradinho do Zoom.

E não é só olhar. É avaliar. É o pensamento automático que vem junto: “tô inchada”, “meu braço tá assim?”, “preciso voltar a treinar”, “essa roupa não tá caindo bem”. Você nem percebe mais. Virou um ruído de fundo tão constante que parece silêncio.

A gente normalizou isso. Acha que é cuidado. Que é consciência corporal. Que é “se conhecer”.

Mas existe uma diferença enorme entre habitar o corpo e fiscalizar o corpo. E a maioria de nós, sem perceber, trocou um pelo outro. E aqui vem a parte que incomoda.

O universo do bem-estar, que deveria ser o lugar onde isso para, muitas vezes é onde isso acelera. Você entra numa aula e tem espelho na parede inteira. Você abre um app de treino e ele pede foto de antes e depois. Você segue um perfil de saúde e ele te mostra um corpo “de referência”. Você vai numa clínica que se apresenta como wellness e a primeira coisa que fazem é mapear o que precisa corrigir em você.

Wellness virou identidade. Não é mais só o que você pratica, é o que você veste pra praticar. Onde você treina. O que você come antes. O que você posta depois. Até o descanso virou conteúdo. Até a meditação virou métrica. “Ser saudável” deixou de ser um estado. Virou uma performance.

E mesmo quem já passou da fase da estética ainda se observa. Só mudou o critério. Antes era “tô magra o suficiente?”. Agora é “tô saudável o suficiente?”, “tô dormindo bem o suficiente?”, “tô fazendo o suficiente por mim?”. O julgamento mudou de roupa. Mas não saiu do corpo. Por isso aquela frase me travou.

Ela não estava falando de resultado. Não estava falando de método, de equipamento, de professor. Estava falando de algo que a gente quase não encontra mais: a experiência de estar no corpo sem se avaliar.

Pensa em quando foi a última vez que você se moveu sem se assistir. Que você fez algo físico e não pensou em como tava parecendo, em como tava rendendo, em como aquilo ia aparecer no espelho dali a duas semanas.

Quando foi a última vez que o seu corpo foi só corpo? Não projeto. Não problema. Não meta. Só corpo.

Se você precisou pensar pra responder, esse texto é sobre você.

O yoga, pelo menos o yoga como eu acredito nele, é um dos poucos lugares onde essa experiência volta. Onde você fecha o olho e o espelho some. Onde a instrução não é “olha como você tá” mas “sente o que tá acontecendo”. Onde não tem antes e depois. Só tem agora.

Foi isso que aquela cliente encontrou aqui. Não um treino melhor. Não um corpo diferente. Um intervalo. Um lugar onde o corpo dela podia só existir, sem ser avaliado, comparado, otimizado.

E quando ela me disse aquilo, eu entendi por que eu criei esse espaço.

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