10 - 13 de Junho

DISTRITO ANHEMBI - SP

Você está comendo menos, mas está se nutrindo bem?

Durante anos, a ideia dominante na cultura de saúde e bem-estar foi simples: comer menos é comer melhor. Essa lógica tem alguma base, especialmente quando o contexto é excesso calórico e emagrecimento. Mas ela esconde um problema que a ciência documenta com crescente clareza: é perfeitamente possível reduzir a ingestão de calorias e, ao mesmo tempo, privar o corpo de nutrientes essenciais. Existe até um nome técnico para isso. A FAO, Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, define como “fome oculta” a deficiência de um ou mais micronutrientes mesmo quando a ingestão calórica é suficiente. Ela não dói. Não aparece em exames básicos. Mas avança silenciosamente, comprometendo imunidade, cognição e saúde metabólica antes de qualquer sintoma óbvio. A escala do problema é maior do que parece Em agosto de 2024, o The Lancet Global Health publicou o primeiro estudo global sobre consumo inadequado de micronutrientes em escala mundial, coordenado pela Universidade de Harvard em parceria com a Universidade da Califórnia e a Aliança Global para Melhor Nutrição. A pesquisa analisou a ingestão de 15 vitaminas e minerais essenciais em 185 países. Os resultados foram expressivos: mais de 5 bilhões de pessoas consomem quantidades insuficientes de iodo, vitamina E ou cálcio. Mais de 4 bilhões têm ingestão inadequada de ferro, riboflavina, folato e vitamina C. Não se trata de países em situação de fome. O estudo abarca populações com acesso regular à comida, mas cuja dieta entrega calorias sem entregar nutrição suficiente. No Brasil, o cenário tem suas especificidades. Um estudo com mais de 1.800 adultos brasileiros, publicado na revista Nutrients em 2024, encontrou probabilidade de inadequação acima de 90% no consumo de vitamina D e vitamina E. E, como apontamos aqui anteriormente, o consumo médio de fibras no Brasil é de cerca de 13,5 g por dia, com 90,1% da população abaixo da recomendação de 25 g diários da OMS. São lacunas amplas, recorrentes e pouco visíveis no dia a dia. O paradoxo da dieta moderna Aqui está o ponto que vale observar com mais atenção. Uma pessoa que reduz o consumo de alimentos ultraprocessados e diminui as porções pode estar, sim, melhorando sua relação com as calorias. Mas se o que entra no lugar não tem densidade nutricional, a equação continua desequilibrada. Os ultraprocessados têm uma característica precisa: alta densidade calórica com baixa densidade nutricional. O corpo recebe energia, a fome desaparece, mas vitaminas, minerais e fibras não chegam. Os sinais disso são difusos. Cansaço frequente, dificuldade de concentração, imunidade mais baixa, queda de cabelo. Sintomas que qualquer pessoa ocupada atribui à correria, ao estresse ou “a uma fase ruim”. Quando na verdade podem ser alertas nutricionais. E há outro aspecto que complica ainda mais essa conta: o gap entre a percepção de comer bem e o que de fato o corpo recebe. Há uma diferença entre seguir a estética do saudável e realmente nutrir o organismo. Cortar o açúcar, reduzir as porções, evitar fritos são escolhas válidas, mas podem coexistir com déficit de magnésio, zinco, vitamina B12 ou folato, sem que a pessoa sinta qualquer sinal imediato. A pergunta que faz mais diferença O que muda na prática com esse entendimento? A questão relevante deixa de ser apenas “quanto eu estou comendo?” e passa a ser “o que o que estou comendo está entregando ao meu organismo?”. O conceito que organiza isso é o de densidade nutricional: a quantidade de vitaminas, minerais, fibras e proteínas que um alimento entrega por caloria. Alimentos de alta densidade nutricional fazem muito mais por muito menos volume. Alimentos de baixa densidade nutricional, mesmo consumidos com moderação, acumulam lacunas que o corpo sente antes de a pessoa perceber. Esse entendimento começa a mudar parte do debate no mercado de alimentos. A demanda por produtos que entregam mais nutrição por porção, e não apenas menos calorias, é crescente. A indústria chama isso de funcionalidade. Mas vale a distinção: há produtos que realmente entregam densidade nutricional, e há produtos que apenas sinalizam saudabilidade no rótulo. Quem entende a diferença toma decisões de compra e de consumo muito mais inteligentes. A narrativa de “comer menos” já cumpriu seu papel ao chamar atenção para o excesso calórico. Agora ela precisa evoluir. Comer melhor é uma medida concreta: mais vitaminas, mais minerais, mais fibras, mais proteína de qualidade por refeição. É olhar para o que o alimento entrega, não apenas para o que ele evita. Se você já controla o quanto come, a próxima pergunta é fundamental: o que está entrando está, de fato, nutrindo o seu corpo? *Paulo Ibri, CEO e cofundador da Typcal, é formado em Marketing pela ESPM em São Paulo. O empreendedor possui mais de 15 anos de experiência em marketing e vendas para bens de consumo. É autor do livro Alta Performance & Impacto pela editora Alta Books. Já foi Gerente Nacional de Distribuição da Red Bull e Head de Marketing da Verde Campo (Coca-Cola). Quer continuar por dentro do que realmente está acontecendo no wellness? A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor. Se inscreva em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/

Alimentos “plus”: a nova fronteira entre conveniência,nutrição e valor real

Durante muito tempo, a lógica da alimentação industrializada foi simples: oferecer praticidade. Depois, veio a fase do “menos culpa”. Agora, entramos em um novo momento, em que o consumidor não quer apenas conveniência, mas escolhas que entreguem mais valor por porção, mais densidade nutricional e mais coerência com o estilo de vida que busca construir. É nesse contexto que ganham força os alimentos “plus”: produtos que combinam atributos como proteína, fibra, energia, saciedade, saúde intestinal e, cada vez mais, sustentabilidade. Esse movimento não é percepção. Ele já aparece com clareza nos números e nas decisões estratégicas da indústria. Um estudo da Future Market Insights que o mercado global de ingredientes proteicos deve crescer de cerca de US$ 55,1 bilhões em 2025 para US$ 84,3 bilhões até 2033, com crescimento anual médio de 5,5%. No caso das fibras alimentares, a projeção aponta um salto de cerca de US$ 9,2 bilhões em 2025 para mais de US$ 15,9 bilhões até 2035. Não se trata mais de uma onda pontual: proteína continua forte, mas a fibra deixou de ser coadjuvante e passou a ocupar um espaço estratégico na inovação alimentar. Na prática, isso significa uma mudança importante no papel do alimento dentro da rotina. O consumidor não quer apenas um snack. Ele quer um snack que contribua para saciedade. Não quer apenas uma bebida pronta. Quer algo que, além de prático, entregue energia, algum benefício nutricional e uma percepção real de equilíbrio. O alimento deixa de cumprir apenas uma função básica e passa a disputar espaço como ferramenta de performance cotidiana, bem-estar e prevenção. Esse é um ponto central da wellness economy atual. O wellness deixou de estar restrito a um ideal de vida perfeita e passou a se conectar mais com a vida real: pouco tempo para cozinhar, agendas cheias, busca por disposição, foco, praticidade e escolhas mais inteligentes dentro do que já cabe no dia. Por isso, os alimentos “plus” não crescem apenas porque estão na moda. Eles crescem porque respondem a uma necessidade concreta de milhões de pessoas. Mas, existe uma diferença importante entre tendência e valor real Nem todo produto com “mais proteína” é automaticamente saudável. Nem toda combinação de benefícios significa boa entrega nutricional. E nem todo alimento com discurso funcional contribui, de fato, para uma rotina mais equilibrada. O mercado evoluiu, mas o excesso de promessas também evoluiu junto. Por isso, o debate sobre alimentos “plus” precisa amadurecer. A pergunta não é se eles são bons ou ruins. A pergunta certa é: quais realmente resolvem uma necessidade concreta do consumidor moderno? Quando bem formulados, esses produtos têm, sim, um papel relevante. Eles podem ajudar quem tem dificuldade em atingir ingestão adequada de proteína no dia a dia. Podem contribuir para aumentar o consumo de fibras, que segue abaixo do ideal em grande parte das dietas modernas. Podem agregar conveniência sem abrir mão de densidade nutricional. E podem representar uma evolução importante em categorias que, historicamente, entregavam calorias, mas pouco valor adicional. Nesse cenário, proteína e fibra merecem atenção especial. A proteína segue em alta porque se conecta a diferentes objetivos ao mesmo tempo: saciedade, manutenção de massa muscular, vitalidade e percepção de performance. Já a fibra ganhou protagonismo por um motivo ainda mais estrutural: ela deixou de ser vista apenas como algo ligado ao intestino e passou a ser entendida como peça central da saúde metabólica, do equilíbrio glicêmico, da saciedade e do bem-estar de longo prazo. A própria OMS recomenda pelo menos 25 g de fibra por dia para adultos, mas a ingestão segue distante desse patamar em muitos mercados. O dado mais relevante talvez seja justamente esse descompasso. Não existe um número único e fechado para quantas pessoas no mundo consomem fibras abaixo do recomendado, mas a literatura é consistente em mostrar um déficit amplo e recorrente. No Brasil, um estudo encontrou 90,1% de inadequação no consumo de fibras, com ingestão média de apenas 13,5 g por dia. Em países europeus, onde a referência costuma ficar em torno de 25 g diários, a ingestão média adulta frequentemente fica entre 16 e 24 g por dia. Ou seja: a fibra é, ao mesmo tempo, uma necessidade nutricional evidente e uma oportunidade concreta de inovação para a indústria de alimentos. E há uma terceira camada ganhando força nessa conversa: sustentabilidade O consumidor de wellness já não olha apenas para os macronutrientes. Ele também quer entender origem, impacto, eficiência e coerência. Isso vale especialmente para proteínas e ingredientes funcionais. A próxima fronteira da alimentação saudável não será apenas oferecer mais nutrição, mas oferecer essa nutrição de forma mais inteligente para o planeta, com cadeias mais eficientes, menos desperdício e menor pressão sobre recursos. O alimento “plus” mais relevante daqui para frente não será apenas o que promete mais benefícios ao corpo, mas o que entrega esses benefícios de forma mais sustentável e compatível com as novas exigências do sistema alimentar. É por isso que essa categoria tem tanto potencial. Quando há tecnologia, critério e boa formulação, o alimento industrializado deixa de ser visto como o oposto de saudabilidade e passa a ser parte da solução. A questão não é parar de consumir industrializados. É aprender a escolher melhor dentro deles. Nem todo produto é igual. E, dentro dessa categoria, começam a surgir opções que de fato entregam mais proteína, mais fibra, melhor composição e mais valor para a rotina real das pessoas. No fim, os alimentos “plus” representam uma evolução importante. Eles respondem a uma demanda legítima da sociedade por praticidade, saúde e propósito no mesmo gesto de consumo. Mas esse potencial só se concretiza quando existe qualidade de formulação, consistência nutricional e honestidade na entrega. O futuro dessa categoria não está no rótulo mais chamativo. Está na capacidade de combinar conveniência, densidade nutricional e sustentabilidade de forma concreta. É justamente aí que os alimentos “plus” deixam de ser moda e passam a representar uma nova lógica de valor. Paulo Ibri, CEO e cofundador da Typcal, é formado em Marketing pela ESPM em São Paulo. O empreendedor