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Câncer de intestino já é o 3º mais comum no Brasil

Esqueça a ideia de que câncer de intestino é coisa de idoso. O tumor colorretal já é o terceiro mais frequente do país, e o pico de diagnósticos fica entre os 50 e os 60 anos, em plena fase produtiva. O Instituto Nacional de Câncer (Inca) projeta 53.810 casos novos por ano entre 2026 e 2028. Só mama e próstata aparecem à frente, sem contar o câncer de pele não melanoma.

Um salto de 18% em uma única estimativa

Na projeção anterior, para o triênio 2023 a 2025, o Inca previa 45.630 casos por ano. A nova conta representa uma alta de cerca de 18%. São 26.270 diagnósticos esperados em homens e 27.540 em mulheres, com concentração maior no Sul e no Sudeste.

O impacto vai além da incidência. Uma análise da epidemiologista Marianna Cancela, do Inca, mostra que o câncer colorretal era o sétimo tumor que mais tirava anos de vida produtiva dos homens no início dos anos 2000. Para 2026 a 2030, ele sobe para o terceiro lugar. Entre as mulheres, o salto é do sexto para o terceiro posto. Para quem lidera equipes, isso significa talento e experiência saindo de campo cedo demais.

O tumor que mudou de idade

O que mais preocupa os oncologistas é o avanço antes dos 50. Um estudo da Sociedade Americana do Câncer publicado na The Lancet Oncology encontrou alta dos casos entre 25 e 49 anos em 27 dos 50 países e territórios analisados. Em 14 deles, as taxas entre os mais velhos ficaram estáveis ou caíram.

No Brasil, o retrato ainda é incompleto, porque faltam dados nacionais organizados por idade. Os sinais, porém, estão aí. O Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) publicou em 2019 um trabalho que mostrou alta de cerca de 15% na chegada de pacientes jovens em dez anos, número que o oncologista Paulo Hoff, diretor do instituto, considera provavelmente subestimado. Dados do Inca também apontam crescimento estatisticamente significativo entre homens de 20 a 49 anos.

As hipóteses passam por dieta rica em ultraprocessados, sedentarismo, obesidade e uso excessivo de antibióticos. Nenhuma está fechada. Todas apontam para o estilo de vida urbano, exatamente o território onde o mercado de bem-estar joga.

Um jogo que se perde no diagnóstico

O problema não é só quantos casos surgem, é quando eles aparecem. Um levantamento da Fundação do Câncer com 177 mil casos registrados entre 2013 e 2022 mostrou que mais de 60% chegaram aos hospitais em estágio avançado. A mesma entidade projeta alta de 21% nos casos entre 2030 e 2040, chegando a cerca de 71 mil diagnósticos.

Até pouco tempo, o país não tinha um programa organizado de rastreio, e o exame dependia da iniciativa de cada pessoa. Isso começou a mudar. Em agosto, o SUS incorporou o teste imunoquímico fecal, o FIT, como exame de referência para pessoas sem sintomas entre 50 e 75 anos, a cada dois anos. A coleta é feita em casa, sem preparo intestinal nem dieta. O teste procura sangue invisível a olho nu e funciona como um filtro, já que só quem tem resultado alterado segue para a colonoscopia.

O Ministério da Saúde fala em alcance de mais de 40 milhões de brasileiros e tem até 180 dias para colocar a oferta de pé na rede pública. O próximo gargalo já está mapeado. A estratégia só funciona se houver colonoscopia disponível para todos os casos positivos.

O que fazer antes do sintoma aparecer

A boa notícia é que esse é um dos poucos cânceres que dá para evitar, e não apenas flagrar. Muitos tumores começam como pólipos, pequenos crescimentos na parede do intestino que a colonoscopia encontra e retira antes de virarem câncer. Especialistas falam em uma janela de cerca de dez anos entre o surgimento do pólipo e a instalação da doença.

Fique atento a sangue ou muco nas fezes, mudança no ritmo do intestino que dura semanas, fezes mais finas, dor frequente na barriga, perda de peso sem motivo e anemia. Nenhum desses sinais é exclusivo de câncer, mas todos pedem investigação, em qualquer idade.

O protocolo do SUS mira a faixa dos 50 aos 75. Sociedades médicas como a Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, na mesma linha dos Estados Unidos, já recomendam que quem não tem fatores de risco converse com o médico sobre exames a partir dos 45 anos. Quem tem casos na família, doença inflamatória intestinal ou histórico de pólipos pode precisar começar antes.

O câncer de intestino virou um termômetro do estilo de vida moderno. A mesma rotina de pressa, ultraprocessados e horas sentado que o setor de bem-estar tenta reverter agora aparece nas estatísticas da oncologia. É a prova de que prevenção deixou de ser discurso e passou a ser estratégia, para o sistema de saúde, para as empresas que cuidam dos seus times e para quem quer chegar inteiro aos 60.

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