Nos últimos anos, medicamentos como semaglutida e liraglutida, usados no tratamento do diabetes e da obesidade, ficaram conhecidos no mundo todo por ajudar na perda de peso e na melhora da saúde metabólica. Mas alguns pacientes relataram não apenas menos fome, mas também menor vontade de beber álcool, fumar ou consumir outras substâncias, e esse efeito vem sendo investigado pela ciência.
Pesquisas sugerem que esses medicamentos, chamados agonistas do receptor de GLP-1, podem influenciar o comportamento ligado à dependência química. Eles imitam um hormônio natural que regula glicose, apetite e saciedade, mas também atua em regiões do cérebro ligadas ao sistema de recompensa, o mesmo envolvido no vício de álcool, nicotina e outras drogas. Quando alguém consome substâncias que provocam dependência, ocorre liberação de dopamina associada ao prazer, e os agonistas do GLP-1 podem reduzir essa resposta, diminuindo o impulso por recompensas imediatas.
Estudos observacionais mostraram que pacientes que usam essas medicações apresentam menor risco de desenvolver problemas relacionados ao álcool, nicotina, opioides, cannabis e cocaína, além de menos internações e complicações associadas ao uso dessas substâncias. Ensaios clínicos iniciais indicam que a semaglutida reduziu o desejo por álcool, a quantidade ingerida em cada ocasião e o número de episódios de consumo excessivo, principalmente em pessoas com obesidade. Pesquisas similares estão sendo conduzidas para tabagismo, dependência de opioides e outras drogas.
Apesar do potencial, é importante destacar que esses medicamentos não são aprovados para tratar dependência química. As agências regulatórias ainda não autorizam esse uso, não há definição de dose ideal e o tratamento de vícios é complexo, envolvendo fatores biológicos, psicológicos e sociais. O acompanhamento clínico, terapia e suporte social continuam essenciais.
O que essas observações indicam é que medicações inicialmente criadas para metabolismo podem afetar mecanismos biológicos do desejo e da compulsão, abrindo novas perspectivas para a abordagem da dependência. Essa descoberta também já tem impacto indireto na indústria, com marcas de bebidas alcoólicas adaptando produtos e oferecendo alternativas sem álcool, refletindo mudanças nos hábitos de consumo de um público que busca menos volume e mais qualidade.
Ricardo Cohen, head do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e ex-presidente da Federação Internacional de Cirurgia da Obesidade e Doenças Metabólicas, reforça que os efeitos sobre comportamento de dependência ainda estão sendo investigados e podem apontar caminhos importantes para a medicina no futuro.
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