A medicina chinesa está passando por uma virada silenciosa, mas profunda. Com a ajuda da inteligência artificial, hospitais estão conseguindo identificar tumores altamente letais antes mesmo de qualquer sintoma aparecer. Um dos exemplos mais emblemáticos vem do uso de IA para detectar câncer de pâncreas em tomografias de rotina, justamente aquelas que médicos muitas vezes descartariam como normais.
O problema é antigo. A abordagem, completamente nova.
O câncer de pâncreas é uma das formas mais agressivas da doença. A taxa de sobrevida em cinco anos gira em torno de 10%, principalmente porque o diagnóstico costuma chegar tarde demais. Os sintomas aparecem quando o tumor já está avançado. Exames com contraste ajudam, mas envolvem altas doses de radiação e não são recomendados para rastreamento em massa. Já as tomografias sem contraste são mais seguras, porém muito menos claras. É aí que a maioria dos casos se perde.
IA enxergando onde o olho humano não chega
Na China, pesquisadores ligados à Alibaba desenvolveram uma ferramenta chamada PANDA, sigla para detecção de câncer de pâncreas com inteligência artificial. O sistema foi treinado para identificar sinais sutis da doença em tomografias sem contraste, algo que muitos especialistas consideravam inviável.
Desde novembro de 2024, a ferramenta vem sendo testada no Hospital Popular Afiliado da Universidade de Ningbo. Nesse período, analisou mais de 180 mil tomografias torácicas e abdominais. O resultado foi a detecção de cerca de duas dezenas de casos de câncer de pâncreas, sendo 14 em estágio inicial. Muitos desses exames não haviam levantado nenhum alerta clínico antes da análise da IA.
Quando a tecnologia muda o desfecho
O caso de Qiu Sijun ilustra bem esse impacto. Três dias após um check-up de rotina para diabetes, ele recebeu uma ligação inesperada pedindo que retornasse ao hospital. O diagnóstico foi câncer de pâncreas. A diferença é que o tumor foi identificado cedo e pôde ser removido cirurgicamente. Segundo o médico responsável, sem a IA, o caso provavelmente teria passado despercebido.
Para os profissionais envolvidos, não há exagero em dizer que a tecnologia salvou vidas
Validação científica e cautela no radar
Em testes publicados na revista Nature Medicine, o sistema conseguiu identificar corretamente 93% dos pacientes com lesões pancreáticas em tomografias sem contraste. Ainda assim, pesquisadores alertam para a necessidade de mais dados do mundo real. O desafio agora é equilibrar a detecção precoce com o risco de falsos positivos e exames desnecessários, especialmente em uma doença de baixa prevalência.
Mesmo com ceticismo inicial, até os próprios engenheiros da ferramenta se surpreenderam com a eficácia do modelo, que foi treinado a partir do mapeamento detalhado de milhares de exames com contraste.
O que isso sinaliza para o futuro da saúde
Mais do que um avanço pontual, o PANDA mostra como a inteligência artificial pode destravar gargalos históricos da medicina preventiva. Não substitui médicos. Amplifica sua capacidade. Antecipar diagnósticos em doenças silenciosas pode mudar completamente os desfechos clínicos. O recado é claro: a próxima grande revolução da saúde não vem só de novos medicamentos, mas de dados, algoritmos e decisões tomadas antes que seja tarde.
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