24 - 26 de Abril

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Dormir melhor muda quem você é? Ou só devolve quem você era?

Uma dúvida silenciosa acompanha muitas pessoas que iniciam tratamento para os problemas do sono como a insônia: “Se eu melhorar usando medicação, esse ‘eu melhor’ sou realmente eu?” Por trás dessa pergunta, existe algo importante e pouco discutido sobre como entendemos nossa própria identidade.

Quando o problema é físico, a lógica costuma ser simples. Quem trata asma e volta a respirar melhor não questiona se está “menos autêntico”. Quem controla a dor não se pergunta se a versão sem dor é artificial. O tratamento é visto como aquilo que remove um incômodo, um obstáculo.

Mas, quando falamos de sono, humor e energia, a percepção muda. Não parece algo físico, orgânico. Entra na esfera do pensamento, sentimento e da subjetividade. O sofrimento, quando se prolonga, começa a parecer parte da personalidade. A insônia crônica não só cansa: ela altera atenção, memória, regulação emocional, tomada de decisão. Com o tempo, a pessoa deixa de dizer “estou dormindo mal” e passa a acreditar “eu sou assim”.

É aqui que nasce o preconceito: inclusive contra o uso de medicação.

É compreensível. Ninguém quer “deixar de ser quem é”. Mas é preciso ajustar essa lente: tratar um distúrbio do sono não tem como objetivo criar uma nova identidade. O objetivo é reduzir interferências que estavam distorcendo a forma como o cérebro funciona no dia a dia. Organicamente.

Quando bem indicada, a medicação não fabrica uma versão artificial do indivíduo. Ela pode, em determinados casos, ajudar a restaurar condições básicas de funcionamento: iniciar o sono, mantê-lo, consolidar ciclos. Isso permite que processos fundamentais: cognitivos, emocionais e metabólicos voltem a operar com mais equilíbrio e permitam tomadas de decisão melhores, inclusive começar a terapia.

Mas esse ponto é essencial: medicação não é solução universal. Nem toda insônia precisa de remédio. Nem toda fase da vida exige intervenção farmacológica. E nem todo paciente responde da mesma forma. Por isso, o cuidado deve ser individualizado, com avaliação adequada e acompanhamento médico.

O que precisa ser combatido não é apenas o sintoma – é também o estigma.

Recusar ajuda por medo de “não ser você mesmo” pode significar permanecer mais tempo sob os efeitos de um problema que já vinha limitando sua vida. Por outro lado, usar medicação sem critério também não é caminho.

Entre o preconceito e o uso indiscriminado, existe um espaço mais maduro: o da decisão compartilhada. E essa decisão ganha força quando respeita princípios fundamentais da psicologia da motivação humana: sentir que você tem escolha (autonomia), que é capaz de conduzir seu próprio processo (competência) e que está sendo cuidado e compreendido dentro de um contexto de apoio (pertencimento). Esses três pilares são essenciais para que qualquer tratamento seja vivido não como imposição, mas como um caminho de recuperação genuína.

Quando o tratamento é bem conduzido, ele não apaga a subjetividade. Ele amplia a liberdade de funcionamento. Permite que a pessoa pense com mais clareza, reaja com mais equilíbrio e esteja mais presente na própria vida.

No fim, talvez a pergunta não seja “isso sou eu?” Mas sim: “quanto de mim estava sendo encoberto pelo meu sono ruim?”

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