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Duas injeções por ano: a revolução na prevenção do HIV chegou. E agora?

Esqueça a pílula diária. A Anvisa acaba de aprovar o lenacapavir, um antirretroviral injetável que promete proteção contra o HIV com apenas duas aplicações por ano. A inovação, que demonstrou eficácia próxima de 100% em estudos clínicos, representa uma virada de chave para a saúde preventiva, mas esbarra em um desafio gigante: o acesso.

O que torna o lenacapavir tão diferente?

A grande sacada do lenacapavir está no seu mecanismo de ação. Em vez de uma abordagem tradicional, ele ataca o capsídeo viral, uma espécie de “escudo protetor” do HIV, bloqueando seu ciclo de replicação em múltiplas fases. Essa ação potente é o que permite que uma única injeção semestral mantenha a proteção. Estudos com milhares de pessoas, incluindo mulheres na África do Sul e Uganda, confirmaram a eficácia quase total, sem nenhum caso de infecção entre os participantes do grupo que recebeu o medicamento.

Menos rotina, mais qualidade de vida

Na prática, a transição de um comprimido diário para duas injeções anuais é um salto enorme em termos de bem-estar e adesão. Para muitas pessoas, especialmente em populações vulneráveis com dificuldade de seguir a rotina da PrEP oral, essa inovação elimina uma barreira significativa. A proposta é simplificar a prevenção, reduzir falhas e promover uma longevidade mais saudável, integrando a ciência de ponta a um estilo de vida com menos preocupações.

O elefante na sala: quem pode pagar pela revolução?

Apesar de toda a empolgação, a chegada do lenacapavir ao Brasil vem com um asterisco gigante: o preço. Com um custo anual estimado entre 25 e 28 mil dólares, o medicamento ainda não foi incorporado ao SUS, o que limita drasticamente seu alcance. Enquanto organizações como a OMS recomendam a droga como uma nova ferramenta poderosa, o acesso no Brasil depende de complexas negociações políticas e econômicas. O desafio agora é transformar essa inovação de ponta em uma política pública acessível.

O lenacapavir não é apenas um novo medicamento; é um vislumbre do futuro da prevenção do HIV. Ele amplia o arsenal de estratégias, mas também expõe a lacuna entre o avanço científico e a equidade no acesso à saúde. O próximo capítulo dessa história será definido não nos laboratórios, mas nas mesas de negociação que decidirão se essa revolução será para todos ou apenas para alguns.