10 - 13 de Junho

DISTRITO ANHEMBI - SP

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Estamos vivendo uma pandemia de TDAH ou apenas fugindo do desconforto de existir?

Nos últimos anos, o TDAH virou assunto de timeline. Cresce o número de adultos que chegam ao consultório com uma suspeita já formada, muitas vezes alimentada por um vídeo de dois minutos nas redes sociais. E, junto com esse movimento, cresce também uma pergunta que precisa ser feita: estamos diante de uma epidemia real ou de uma epidemia de diagnósticos?

Antes de qualquer coisa, preciso ser honesta, o TDAH existe, é uma condição do neurodesenvolvimento com base científica sólida, e durante décadas foi subdiagnosticado, especialmente em mulheres e adultos. Há pessoas que chegam aos 40 anos carregando uma história de fracasso escolar, relacionamentos difíceis e sensação constante de não se encaixar, sem nunca terem recebido um diagnóstico adequado. Para essas pessoas, o diagnóstico muda de vida.

Mas isso não é o que está acontecendo com todo mundo que hoje se identifica com o transtorno.

O problema do diagnóstico por identificação

Desatenção, impulsividade, dificuldade de organização e procrastinação são sintomas do TDAH. São também sintomas de privação de sono, de estresse crônico, de ansiedade, de disbiose intestinal, de desequilíbrio hormonal, de excesso de tela e de uma vida que exige atenção simultânea em 15 direções ao mesmo tempo. Quando o algoritmo mostra um vídeo dizendo que tudo isso é TDAH, e a pessoa se reconhece, o autodiagnóstico acontece antes de qualquer avaliação clínica.

O diagnóstico de TDAH é clínico, longitudinal e contextual. Ele exige que os sintomas estejam presentes desde a infância, que apareçam em mais de um ambiente da vida da pessoa, e que causem prejuízo funcional real. Não é uma checklist de comportamentos que qualquer um de nós poderia marcar em uma segunda-feira de muito trabalho.

O que o nosso cérebro está tentando dizer

Na medicina preventiva, eu aprendi a respeitar os sintomas como mensageiros. Um cérebro que não consegue se concentrar está dizendo algo. Mas antes de concluir que ele tem um transtorno estrutural, preciso perguntar: esse cérebro dorme bem? Está sob cortisol elevado há meses? Recebe a nutrição adequada? Tem algum desequilíbrio hormonal que interfere na função cognitiva?

Em muitos casos que chegam até mim com suspeita de TDAH, o que encontramos é um sistema nervoso em colapso por fatores tratáveis. Isso não invalida o transtorno, invalida o atalho.

O risco do rótulo fácil

Quando transformamos desconforto em diagnóstico sem rigor, perdemos duas vezes. Primeiro, porque deixamos de investigar o que realmente está acontecendo com aquela pessoa. Segundo, porque esvaziamos o significado de um transtorno real para quem genuinamente o tem e precisa de suporte.

Viver em 2026 é cognitivamente exaustivo. Somos bombardeados por estímulos, dormimos mal, comemos de forma inflamatória e vivemos sob pressão constante. Talvez o que esteja em pandemia não seja o TDAH. Seja a incapacidade coletiva de tolerar o tédio, a lentidão e o esforço que a atenção genuína exige.

Isso merece cuidado. Mas merece, antes de tudo, uma boa avaliação.

Dra. Maryna Landim Borges

Medicina Preventiva e Estilo de Vida | Longevidade e Saúde Hormonal Feminina

CRM CE: 16.304 | CRM SP: 152.889 | RQE: 9839

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