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Longevidade em foco: quando epigenética e metabolismo conversam

A longevidade tornou-se um dos grandes temas da ciência contemporânea. Não se trata apenas de ampliar os anos de vida, mas de compreender como viver mais tempo com funcionalidade, autonomia e qualidade. Dados epidemiológicos indicam que o envelhecimento populacional ocorre em ritmo acelerado: atualmente, cerca de 11% da população mundial tem mais de 60 anos, e as projeções apontam que essa proporção deverá alcançar aproximadamente 22% até 2050. Esse fenômeno, no entanto, não foi acompanhado por uma redução proporcional na prevalência de doenças crônicas. Observa-se, assim, um paradoxo crescente: vive-se mais, mas nem sempre se vive melhor. Diante desse cenário, a ciência do envelhecimento ganhou protagonismo, impulsionada pela necessidade de mensurar o envelhecimento biológico, identificar riscos precocemente e, sobretudo, investigar intervenções capazes de modular esse processo ao longo da vida. É nesse contexto que a epigenética emerge como uma verdadeira virada de chave.

Os genes carregam as informações hereditárias que estruturam o organismo humano, determinando características biológicas, metabólicas e funcionais. No entanto, a presença de um gene não implica sua expressão contínua ou invariável ao longo do tempo. A epigenética refere-se a um conjunto de mecanismos moleculares capazes de regular a expressão gênica sem alterar a sequência do DNA. Diferentemente das mutações genéticas, essas modificações atuam sobre a organização da cromatina, tornando determinadas regiões do genoma mais ou menos acessíveis à maquinaria celular. Entre os principais mecanismos epigenéticos descritos estão a metilação do DNA, as modificações das histonas e a ação de RNAs não codificantes. Uma analogia frequentemente utilizada é a do interruptor molecular: os genes permanecem presentes, mas podem ser “ligados” ou “desligados” em resposta a estímulos internos e externos.

Esses processos são altamente sensíveis ao ambiente e refletem a interação contínua entre o organismo e seu contexto. Fatores como alimentação, atividade física, qualidade do sono, estresse psicossocial e exposições ambientais modulam o perfil epigenético ao longo do tempo, influenciando vias associadas à inflamação, ao metabolismo energético, à resposta ao estresse oxidativo e à homeostase celular. Dessa forma, a epigenética pode ser compreendida como uma interface dinâmica entre genética e estilo de vida, traduzindo escolhas cotidianas em respostas biológicas potencialmente duradouras.

Avanços recentes na área permitiram a descoberta/desenvolvimento dos chamados relógios epigenéticos, ferramentas baseadas em padrões específicos de metilação do DNA capazes de estimar a idade biológica de tecidos e do organismo como um todo. Diferentemente da idade cronológica, a idade epigenética reflete o estado funcional das células e tem sido consistentemente associada a desfechos como risco cardiometabólico, inflamação crônica de baixo grau, doenças crônicas não transmissíveis e mortalidade. Revisões sistemáticas apontam esses relógios como biomarcadores robustos do envelhecimento biológico, com potencial aplicação tanto em pesquisa quanto em contextos clínicos e preventivos . Um aspecto particularmente relevante é a observação de que indivíduos da mesma faixa etária cronológica podem apresentar idades epigenéticas significativamente distintas, sugerindo trajetórias heterogêneas de envelhecimento e reforçando o interesse em estratégias capazes de modular esses marcadores ao longo do tempo.

Durante décadas, a hereditariedade do tempo de vida humano foi estimada como baixa (= 20-25%), e em alguns estudos recentes, como inferior a 10%. No entanto, essa perspectiva tem sido progressivamente revisada. Evidências recentes, publicadas na revista Science em janeiro de 2026, demonstraram que, após o controle rigoroso de fatores de confusão (como ambiente compartilhado, nível socioeconômico e comportamentos de saúde) a herdabilidade da longevidade humana intrínseca situa-se em torno de 50 a 55%. Esses achados indicam que, embora a genética desempenhe papel relevante, uma parcela substancial da variabilidade na duração da vida está relacionada a fatores ambientais, comportamentais e metabólicos, muitos dos quais exercem seus efeitos por meio de mecanismos epigenéticos.

Nesse cenário, estudos sobre longevidade extrema têm contribuído de forma decisiva para a compreensão dos determinantes do envelhecimento saudável. Pesquisas baseadas em abordagens de metabolômica e proteômica revelam que indivíduos extremamente longevos apresentam perfis metabólicos e proteicos específicos, associados a maior eficiência energética, melhor controle inflamatório e preservação da função mitocondrial. Esses biomarcadores oferecem insights importantes sobre os mecanismos biológicos que sustentam trajetórias de envelhecimento mais favoráveis, indo além da análise genética isolada e incorporando o papel central do metabolismo na longevidade.

O Projeto DNA Longevo, desenvolvido no Brasil e conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo, ganhou destaque internacional ao investigar indivíduos com longevidade extrema em um contexto de ampla diversidade genética. A publicação recente na revista Nature chama atenção não apenas para os achados genômicos, mas também para aspectos funcionais e sociais desses indivíduos. O relato de um participante de 107 anos, ainda ativo no mercado de trabalho formal, ilustra que a longevidade pode estar associada não apenas à sobrevida, mas também à manutenção da autonomia e da funcionalidade. Esses dados reforçam a ideia de que a longevidade extrema resulta da convergência entre herança genética, regulação epigenética, metabolismo e exposições ambientais ao longo do curso da vida.

A epigenética, portanto, não resulta de um único fator isolado, mas de um conjunto de exposições cumulativas. Entre elas, a alimentação ocupa papel central. Evidências recentes indicam que nutrientes e metabólitos participam diretamente das vias bioquímicas envolvidas nas modificações epigenéticas, influenciando processos como metilação do DNA e remodelação da cromatina. Estudos mostram que a regulação dietética do envelhecimento epigenético não se limita à modulação global dos relógios epigenéticos, mas envolve também mecanismos gene-específicos, capazes de influenciar vias metabólicas, inflamatórias e de reparo celular. Assim, padrões alimentares consistentes ao longo da vida exercem impacto significativo sobre o envelhecimento biológico, reforçando o papel da nutrição como moduladora ativa da expressão gênica.

Em conjunto, essas evidências indicam que o papel da genética na longevidade humana, embora relevante, não é determinístico. A epigenética emerge como um elo fundamental entre herança genética e ambiente, traduzindo experiências, comportamentos e escolhas alimentares em respostas biológicas mensuráveis. Nesse contexto, compreender como nutrição, metabolismo e epigenética interagem torna-se essencial para o avanço da ciência da longevidade e para a construção de estratégias que promovam não apenas uma vida mais longa, mas um envelhecimento mais saudável, funcional e sustentável.

A carga genética influencia, sim, e muito!

Mas a pergunta que fica é: o que fazemos com o restante dessa equação? É justamente aí que entram os hábitos, o ambiente em que vivemos, a forma como nos alimentamos, dormimos, lidamos com o estresse e nos movimentamos. Muitos desses fatores exercem seus efeitos por meio de mecanismos epigenéticos, modulando a forma como nossos genes se expressam ao longo do tempo. A longevidade deixou de ser um conceito distante, ela já começou e está sendo construída todos os dias.


Referências bibliográficas

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