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Nestlé aposta em inteligência artificial para conquistar o mercado de nutrição GLP-1*

Culpar o Ozempic pela queda no consumo de alimentos embalados é simplificar demais o jogo. A Nestlé acaba de mostrar a jogada oposta. A companhia está usando inteligência artificial e ciência nutricional para desenhar produtos feitos especificamente para quem toma medicamentos GLP-1, e o motor disso é uma plataforma interna chamada Food Genie, que cruza cerca de 120 mil receitas do banco de dados da empresa com pesquisa clínica para prever como uma formulação vai se comportar antes de existir. Cerca de 16 milhões de americanos usam esses remédios hoje, número que deve crescer até o fim da década.

O ativo escondido não é a IA, é o banco de receitas

O diretor de tecnologia da Nestlé, Stefan Palzer, deu a chave dessa história ao comentar o tamanho do acervo. Uma empresa pequena tem mil receitas. A Nestlé tem 120 mil.

Modelo de IA é commodity, qualquer um compra. Dado proprietário acumulado por décadas não. É isso que transforma a mesma tecnologia disponível para todos numa vantagem competitiva real, porque a qualidade da previsão depende diretamente do volume de dados que alimenta o sistema.

A empresa não parou aí. Também testa simulações de reação do consumidor para avaliar produtos e alegações de saúde antes de chegarem à prateleira, e usa IA para varrer redes sociais separando barulho passageiro de tendência que vai durar. Traduzindo, a Nestlé está encurtando o ciclo entre hipótese e lançamento num mercado onde chegar seis meses antes vale mais do que chegar melhor.

Vender menos comida, mais cara

A ansiedade do setor era simples. Se milhões de pessoas passam a comer menos, quem vive de volume perde. Investidores olharam para snacks, bebidas e congelados e viram uma conta encolhendo.

A Nestlé virou a equação. Se o consumidor vai comer menos, a disputa passa a ser por uma fatia maior daquilo que ele ainda come. Nos Estados Unidos, quem usa GLP-1 consome cerca de 40% mais proteína e 30% mais fibra. Menos volume, mais densidade nutricional, ticket mais alto.

O portfólio já reflete isso. O Boost Advanced Nutrition Shake, com 35 gramas de proteína, mira a preservação de massa muscular durante a perda de peso. Na Ásia e na Austrália saiu o Milo PRO High Protein. A empresa também adicionou colágeno a produtos da Vital Proteins e identificou uma combinação de dois micronutrientes que estimula o crescimento de tecido muscular quando somada à proteína.

A categoria que nasceu do efeito colateral

Aqui está o insight mais valioso para quem opera bem-estar. O produto não é o emagrecimento. O produto é o conjunto de problemas que o emagrecimento rápido cria.

Perda de massa magra, perda de gordura facial, deficiência nutricional, hidratação comprometida. Cada um desses é uma linha de receita. A Nestlé chegou a patentear formulações para ajudar a controlar o aumento do apetite em quem para de usar a medicação, o que significa apostar até no fim do tratamento como oportunidade comercial.

Nem todo mundo compra a tese. Parte dos nutricionistas argumenta que proteína e micronutrientes já estão disponíveis em ovo, laticínio, feijão e peixe, e que boa parte disso é marca, não ciência. A crítica é justa e vai definir quem constrói autoridade real nessa categoria e quem só troca o rótulo.

O GLP-1 pode se tornar o descritor comercial mais importante da próxima década, e ele nem precisa aparecer na embalagem. Basta a porção menor, a densidade maior e a promessa de manter músculo. A categoria criada por um medicamento tende a ficar bem maior que o próprio medicamento, transformando a forma como a indústria de alimentos define o que é um produto de valor.

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