Overtraining não é “treinar muito”: é o desequilíbrio entre sobrecarga treino e vida e recuperação, que derruba a performance e desorganiza o controle cardiovascular.
Na rotina do esporte, é comum confundir cansaço normal com overtraining. O consenso da ECSS e ACSM descreve um espectro: functional overreaching queda breve de desempenho, com melhora após alguns dias, nonfunctional overreaching queda que se prolonga por semanas e, no extremo, a síndrome do overtraining, com recuperação que pode levar semanas a meses. A diferença central não é “quanto você treinou”, mas quanto tempo o desempenho e os sintomas demoram a normalizar.
E onde o coração entra nessa história? Ele não “falha” por estar trabalhando demais, mas porque o overtraining costuma vir acompanhado de alterações no controle autonômico simpático e parassimpático, sono pior, estresse psicológico e, muitas vezes, baixa disponibilidade energética. Esse conjunto muda a forma como a frequência cardíaca se comporta no dia a dia e no treino.
O que muda no coração na prática
Na prática, alguns sinais cardiovasculares aparecem com consistência:
Frequência cardíaca de repouso mais alta por vários dias, ou uma oscilação incomum para o seu padrão.
Aumento da FC em treinos fáceis: ritmos ou zonas que antes eram confortáveis passam a exigir mais esforço.
Recuperação da FC alterada após exercícios padronizados. Estudos em endurance mostram que fases de overreaching podem modificar a cinética de recuperação da FC, um dado útil quando comparado ao próprio histórico do atleta, e não como diagnóstico isolado.
Queda sustentada da VFC ou HRV, principalmente quando coincide com piora de sono, humor, dor muscular persistente e queda de performance. Revisões recentes reforçam a utilidade da HRV como ferramenta de monitoramento quando analisada em tendência médias semanais, contexto de treino e sintomas, evitando decisões baseadas em um número de um dia.
Palpitações e percepção de batimentos irregulares, especialmente em períodos de acúmulo de carga e recuperação incompleta vale investigação se persistentes.
Não existe um exame mágico
O ponto importante: não existe um exame único que “fecha” overtraining. A avaliação é clínica e longitudinal: queda de performance, aumento de esforço percebido para a mesma carga, sinais de estresse sistêmico e exclusão de outras causas infecção, anemia, distúrbios do sono, hipotireoidismo, entre outras.
Conduta prática para quem treina sério
Periodize e inclua semanas leves.
Acompanhe tendências de FC de repouso, variabilidade da frequência cardíaca e desempenho.
Priorize sono e ingestão calórica adequada.
Trate sintomas persistentes como dado clínico, não como falta de disciplina.
Se houver dor torácica, síncope ou tontura importante, falta de ar desproporcional ou palpitações frequentes, a regra é simples: pausar os treinos e procurar avaliação médica.

Referências
- Meeusen R, et al. Prevention, diagnosis and treatment of the Overtraining Syndrome: Joint consensus statement of the ECSS and ACSM. Eur J Sport Sci. 2013.
- Le Meur Y, et al. Assessing Overreaching With Heart-Rate Recovery. Int J Sports Physiol Perform. 2017.
- Aubry A, et al. The development of functional overreaching is associated with a faster heart rate recovery in endurance athletes. PLOS ONE. 2015.
- Esco MR, et al. Monitoring Training Adaptation and Recovery Status in Athletes Using Heart Rate Variability via Mobile Devices: A Narrative Review. Sensors. 2025.
- Addleman JS, et al. Heart Rate Variability Applications in Strength and Conditioning: A Narrative Review. Sports Basel / PMC. 2024.
- Weakley J, et al. Overtraining Syndrome Symptoms and Diagnosis in Athletes. Int J Sports Physiol Perform. 2022.