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O “divórcio do sono” está com os dias contados. Conheça o “acordo do sono”

Na saúde e na doença e também durante o sono. Aprendemos que casais apaixonados dividem a vida, os planos, as viagens, os problemas, a cama e, de preferência, o mesmo edredom.

Dormir juntos tornou-se quase uma representação silenciosa da intimidade, até que chega a vida real.

Um ronca. O outro se mexe. Um sente calor. O outro dorme enrolado no cobertor. Um quer assistir televisão até tarde. O outro precisa acordar às cinco da manhã. Um coloca três despertadores. O outro acorda nos três, e nem precisava levantar.

E assim, noite após noite, algumas pessoas fazem uma demonstração bastante curiosa de amor: sacrificam o próprio sono para continuar dormindo ao lado de quem amam.

Talvez esteja na hora de discutirmos isso.

Periodicamente um “divórcio” que não pretende separar ninguém aprece na mídia. Vários casais chamam atenção ao falar sobre um nome muito mais dramático do que provavelmente merecia: sleep divorce.

Ou “divórcio do sono”, quando duas pessoas que mantêm seu relacionamento optam por dormir em camas ou quartos diferentes porque, juntas, simplesmente não estão dormindo bem. E não é uma excentricidade.

Pesquisas da American Academy of Sleep Medicine mostram que uma parcela relevante dos adultos americanos já adotou alguma forma de dormir separado para acomodar as necessidades de sono do parceiro.

Mas antes de ir para o outro quarto, há uma pergunta muito mais interessante: a ciência diz que dormir separado é melhor?

Não.

Também não diz que dormir junto é sempre melhor.

E é justamente aí que a história fica interessante.

O que a ciência diz sobre dormir junto?

Um pequeno e fascinante estudo publicado em 2020 na revista Frontiers in Psychiatry colocou 12 casais jovens e saudáveis em um laboratório do sono para fazerem um exame do sono. Os pesquisadores realizaram a polissonografia simultânea dos dois parceiros e compararam o que acontecia quando dormiam juntos e separados.

Quando compartilhavam a cama, os participantes apresentaram cerca de 10% mais sono REM, menos fragmentação desse estágio e maiores períodos contínuos de REM.

E mais curioso ainda: os estágios de sono dos dois parceiros apresentaram maior sincronização quando eles dormiam juntos.

Apesar desse estudo ter sido pequeno, dormir acompanhado nos lembra que:

Existe toque. Existe segurança. Existe vínculo. Existe intimidade.

E talvez exista até alguma sincronização fisiológica entre quem divide a noite.

Mas existe o outro lado da cama…

O que acontece quando o sono de um atrapalha o sono do outro?

Em 2023, pesquisadores estudaram 143 casais que compartilhavam a cama e avaliaram os hábitos de sono de cada parceiro.

O trabalho, publicado no Journal of Sleep Research, encontrou algo que considero particularmente interessante: piores hábitos de sono e pior higiene do sono esteve associada a sono de má qualidade, maior sofrimento emocional e maior frequência de conflitos no relacionamento.

Mais do que isso, a percepção de maus hábitos de sono do parceiro também esteve relacionada a maior conflito conjugal.

Traduzindo para a vida real: a maneira como você dorme pode não terminar em você.

Ela atravessa o colchão.

E talvez essa seja a parte mais importante dessa conversa.

Em um casamento, você também deveria cuidar do sono do outro.

Nós falamos muito sobre higiene do sono como uma responsabilidade individual.

Mas talvez precisemos começar a falar também em higiene do sono do casal.

Se você fica vendo vídeos no celular enquanto seu parceiro tenta dormir, isso diz respeito ao sono dele.

Se você coloca o despertador muito antes da hora em que realmente pretende levantar e aperta o soneca cinco vezes, isso diz respeito ao sono dele.

Ou mesmo coloca o despertador no mais alto volume (espero que dona encrenca não leia essa texto), isso também diz respeito ao sono dele.

Se você chega tarde, acende todas as luzes e começa a procurar coisas pelo quarto, isso diz respeito ao sono dele.

E se você ronca intensamente há anos, sua parceira reclama, percebe que você para de respirar durante a noite, e você transforma aquilo em piada em vez de investigar… isso também diz respeito ao sono dela.

Há uma frase que talvez precisemos incorporar aos relacionamentos: quem divide a cama também divide, em alguma medida, a responsabilidade pelo sono do outro.

Não mande a apneia para outro quarto

Mas não mande a apneia para outro quarto. Aqui está a principal ressalva que faço à ideia do chamado “divórcio do sono”.

Imagine uma mulher que acorde repetidamente porque o marido ronca intensamente e apresenta pausas respiratórias.

Eles resolvem dormir separados.

Ela passa a dormir maravilhosamente.

Problema resolvido?

O dela, talvez. O dele, não.

O ronco pode ser manifestação de apneia obstrutiva do sono.

Nesse caso, trocar de quarto elimina a testemunha.

Não elimina a doença.

Aliás, muitas vezes é justamente quem dorme ao lado que percebe aquilo que o paciente jamais poderia perceber enquanto está dormindo.

Por isso, antes de separar as camas, vale perguntar: o que exatamente está nos impedindo de dormir bem juntos?

Ronco? Apneia? Insônia? Movimentos durante a noite? Cronotipos muito diferentes? Horários de trabalho incompatíveis? Temperatura? Luz? Barulho?

Ou simplesmente duas pessoas que se amam, mas dormem melhor separadas?

São situações completamente diferentes.

Um acordo do sono em vez de um divórcio do sono?

Eu proponho aposentarmos o “divórcio do sono”.

Talvez o problema comece pelo próprio nome: Divórcio do sono.

Não gosto dele.

Divórcio pressupõe rompimento, afastamento, fracasso.

E dormir separado não precisa representar absolutamente nada disso.

Por isso, proponho outro termo: “Acordo do sono.”

Gosto bem mais.

Porque muda completamente o significado.

Um acordo pressupõe conversa.

Negociação.

Cuidado.

Reciprocidade.

E, principalmente, uma decisão tomada pelos dois.

O acordo do sono pode significar quartos separados.

Mas também pode significar camas separadas no mesmo quarto.

Edredons separados.

Horários parcialmente diferentes.

Dormir separado apenas em algumas noites da semana.

Pode ser uma solução temporária enquanto um dos parceiros trata um distúrbio do sono.

Pode até significar deitar juntos, conversar, namorar, abraçar e preservar aquele momento de intimidade… e depois cada um ir para o lugar onde consegue dormir melhor.

Dormir separado não precisa significar viver separado.

E talvez devêssemos parar de medir a qualidade de um relacionamento pela distância entre dois travesseiros.

Façam um acordo antes de pedir o divórcio!

Talvez casais precisem conversar sobre sono com a mesma naturalidade com que conversam sobre dinheiro, filhos, sexo, férias e trabalho.

Como você dorme quando está comigo?

Eu atrapalho o seu sono?

Existe alguma coisa que eu faço à noite que poderia mudar?

Você tem acordado descansado?

O que podemos fazer para que nós dois durmamos melhor?

Repare na última pergunta.

Não é: “Como eu posso dormir melhor?”

É: “Como nós podemos dormir melhor?”

Essa pequena mudança talvez seja uma das mensagens mais importantes desta coluna.

Porque um relacionamento saudável não deveria exigir que alguém durma mal silenciosamente todas as noites para preservar a fotografia romântica de duas pessoas na mesma cama.

Às vezes, amar será procurar tratamento.

Às vezes, será desligar o celular.

Às vezes, será parar de apertar o soneca.

Às vezes, será tratar a apneia.

E, sim, para alguns casais, poderá significar fechar a porta de outro quarto e dizer: “Durma bem. Amanhã a gente se encontra.”

Não vejo isso necessariamente como divórcio, mas como um “acordo do sono”.

Porque dividir uma vida com alguém deveria incluir uma responsabilidade que raramente aparece nos votos de casamento: na saúde e na doença, nos dias bons e nos ruins… eu também vou cuidar do seu sono.

No fim das contas, amor não é apenas querer acordar ao lado de alguém.

É se importar com a forma como essa pessoa dorme e como ela vai acordar.

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