O café ficou para trás. Em escritórios de tecnologia no Vale do Silício e em polos como Austin, um novo “combustível cognitivo” ganhou espaço: sachês de nicotina. Geladeiras e máquinas de venda automática, antes abastecidas com energéticos, agora oferecem pequenas bolsas de nicotina usadas para aumentar foco e produtividade.
O que começou como alternativa para fumantes que queriam abandonar o cigarro virou, silenciosamente, uma ferramenta de performance entre engenheiros, fundadores e executivos de startups. A promessa é simples: concentração rápida, alerta mental e menos distração em ambientes de alta pressão.
A adoção chegou ao nível institucional. A Palantir Technologies, uma das empresas mais simbólicas do setor, instalou máquinas personalizadas de sachês de nicotina em seus escritórios em Washington, D.C., tratando o produto quase como um benefício corporativo. O recado é claro: foco virou ativo estratégico.
Diferente do cigarro ou do vape, os sachês não envolvem fumaça. Eles são colocados entre a gengiva e a bochecha, liberando nicotina diretamente na corrente sanguínea. Para muitos usuários, isso representa uma forma “mais limpa” de estimular o cérebro, sem cheiro, sem combustão e sem interrupções.
Mas o movimento levanta alertas importantes. Médicos e especialistas em saúde pública chamam atenção para um risco pouco discutido: a normalização do uso de nicotina entre pessoas que nunca fumaram. A substância continua sendo altamente viciante e seu uso frequente está associado ao aumento da pressão arterial, maior risco cardiovascular e alterações no sistema de recompensa do cérebro, incluindo anedonia, a redução da capacidade de sentir prazer ao longo do tempo.
A Food and Drug Administration dos Estados Unidos já deixou claro que o fato de esses produtos serem legalmente comercializados não significa que sejam seguros. O enquadramento regulatório atual é mais permissivo, mas os efeitos de longo prazo desse consumo disseminado ainda são pouco compreendidos.
O crescimento do mercado ajuda a explicar o entusiasmo. Em 2024, o mercado global de sachês de nicotina foi estimado em US$ 5,3 bilhões. As projeções indicam que esse número pode ultrapassar US$ 25 bilhões até 2030, impulsionado justamente pela expansão para além do público fumante tradicional.
No fundo, o fenômeno revela algo maior. Em um ecossistema obcecado por performance, longevidade cognitiva e vantagem competitiva, substâncias antes associadas ao vício passam a ser reembaladas como ferramentas de produtividade. A pergunta que fica é menos sobre a nicotina em si e mais sobre até onde estamos dispostos a ir para sustentar o ritmo do trabalho moderno.
No Vale do Silício, o café perdeu o protagonismo. O custo desse novo estímulo, porém, ainda está sendo calculado.
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