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Os supercentenários do Brasil estão mudando o que a ciência entende por envelhecer

O Brasil abriga algumas das pessoas mais longevas do planeta. E agora começa a mostrar por quê.
Estudos recentes com brasileiros que ultrapassaram os 110 anos indicam que a chave da longevidade extrema pode não estar em dietas perfeitas ou tecnologia médica de ponta, mas em algo mais profundo: resiliência biológica.

Em um dos casos acompanhados por pesquisadores, uma mulher chegou aos 110 anos enquanto vários de seus sobrinhos ultrapassaram os 100. Um deles, aos 106 anos, competiu em provas de natação aos 100. Não é exceção isolada. É padrão emergente.

Essas famílias estão no centro de um novo estudo publicado em janeiro na revista Genomic Psychiatry, liderado pela professora Mayana Zatz, do Centro de Pesquisa em Genoma Humano e Células-Tronco da USP. O trabalho posiciona o Brasil como um dos laboratórios vivos mais relevantes e menos explorados da ciência da longevidade.

Por que o Brasil importa para a ciência do envelhecimento

Grande parte da pesquisa em longevidade foi construída a partir de populações ricas e geneticamente homogêneas. O Brasil foge completamente desse modelo. Sua população reflete séculos de miscigenação entre povos indígenas, africanos, europeus e asiáticos, criando uma diversidade genética rara no mundo.

Quando cientistas analisaram o genoma de brasileiros muito longevos, encontraram mais de 8 milhões de variantes genéticas que não aparecem em bancos de dados globais. Algumas delas podem representar vantagens silenciosas, que só se manifestam ao longo de uma vida extremamente longa.

Segundo o pesquisador Mateus Vidigal de Castro, primeiro autor do estudo, a falta de diversidade limita o avanço da ciência. Supercentenários geneticamente diversos podem carregar mecanismos protetores que simplesmente não existem em populações mais uniformes. Em outras palavras, a ciência pode ter passado décadas olhando para o lugar errado.

Um dado que desafia a lógica

Três dos homens validados mais longevos do mundo são brasileiros. Entre eles está o homem vivo mais velho do planeta, nascido em outubro de 1912 e hoje com 113 anos.

Esse dado chama atenção porque a longevidade extrema masculina é rara. Homens costumam enfrentar maior risco cardiovascular, além de desvantagens hormonais e imunológicas ao longo da vida. Mesmo assim, o Brasil aparece de forma desproporcional nesse grupo.

Entre as mulheres, o padrão se repete. Brasileiras figuram com frequência entre as mulheres mais longevas da história, superando países muito mais ricos e com sistemas de saúde mais robustos. O recado é claro: longevidade extrema não é apenas um produto de dinheiro ou medicina avançada.

Nada de dietas perfeitas ou rotinas milagrosas

Talvez o achado mais surpreendente seja o estilo de vida desses supercentenários. Eles não seguiram dietas restritivas, protocolos sofisticados ou rotinas biohackers. Comeram o que estava disponível, viveram vidas comuns e, muitas vezes, envelheceram em regiões com acesso limitado à saúde moderna.

Isso desloca o foco da longevidade da otimização constante para algo mais estrutural. Esses corpos parecem tolerar melhor o estresse, a infecção e o acúmulo de danos celulares ao longo do tempo.

O que acontece dentro dessas células

No nível celular, os supercentenários brasileiros apresentam sistemas que continuam funcionando quando o esperado seria falhar. A autofagia, processo de limpeza celular, permanece ativa. O proteassoma, responsável por descartar proteínas danificadas, segue eficiente.

O sistema imunológico também não simplesmente enfraquece. Ele se adapta. Certos tipos de células assumem funções extras, criando uma defesa mais flexível e funcional, mesmo sem perfeição.

A pandemia de Covid-19 serviu como um teste extremo. Três supercentenários brasileiros contraíram o vírus antes da existência das vacinas e sobreviveram. Análises posteriores mostraram produção robusta de anticorpos neutralizantes e sinais fortes de resposta imune inata.

Esses organismos não escapam do envelhecimento. Eles aprendem a conviver com ele.

O que isso muda para o futuro da longevidade

Para Mayana Zatz, esses indivíduos não são apenas curiosidades biológicas. Eles expõem falhas na forma como a ciência estuda o envelhecimento e para quem essa ciência tem sido feita.

A equipe agora avança além do sequenciamento genético, aprofundando o estudo do sistema imune e desenvolvendo modelos celulares a partir desses indivíduos. O recado aos consórcios globais é direto: sem diversidade populacional, os principais mecanismos da longevidade saudável podem continuar invisíveis.

A lição que emerge do Brasil é poderosa e contraintuitiva. Viver mais talvez não exija perfeição constante. Talvez exija resiliência construída lentamente, ao longo de uma vida inteira.

E isso muda tudo sobre como pensamos envelhecimento, prevenção e saúde no longo prazo.

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