Culpar apenas a genética é simplificar demais o jogo. Um levantamento do departamento de cardiologia da Rede D’Or, apresentado no Congresso Internacional de Cardiologia Rede D’Or 2026, mostrou que o paciente de São Paulo infarta com idade média de 58 anos, o perfil mais jovem entre todos os estados analisados. Em Pernambuco, a média é de 70 anos. São doze anos de diferença dentro do mesmo país, no mesmo sistema de saúde privado, com o mesmo acesso a exame. A variável que sobra é o modo de vida.
O que 58 anos significam para o seu quadro de talentos
O estudo analisou 4.921 pacientes atendidos com suspeita de infarto entre janeiro de 2025 e março de 2026, em 59 unidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Distrito Federal, Minas Gerais e Pernambuco. São Paulo e Rio concentraram 60% dos atendimentos. As médias de idade foram de 58 anos em São Paulo, 62 no Rio, 67 no Distrito Federal, 67,5 em Minas, 69 na Bahia e 70 em Pernambuco.
Agora traduza esse número para a planilha de qualquer empresa. Aos 58 anos, um profissional está no pico da senioridade, com duas ou três décadas de repertório acumulado e, muitas vezes, ocupando cadeira de decisão. Perder essa pessoa, ou afastá-la por meses, não é um custo de plano de saúde. É perda de capital intelectual, ruptura de continuidade e reposição cara. Longevidade deixou de ser pauta de bem-estar individual e virou item de gestão de risco corporativo.
O estresse não é vilão isolado, é o sintoma de um ambiente
Segundo a cardiologista Mariana Mancilha, gerente médica da Cardiologia D’Or, o perfil mais jovem em São Paulo é multifatorial. O estresse psicossocial aparece como um dos principais fatores independentes ligados ao infarto, ao lado de tabagismo, hipertensão, diabetes e dislipidemia. O estresse crônico promove alterações neuro-hormonais, metabólicas e inflamatórias que aceleram a aterosclerose.
Os outros números do levantamento reforçam o quadro. Entre os pacientes atendidos, 70% tinham hipertensão e 40% apresentavam colesterol elevado. Estamos falando de gente atendida na rede privada, com acesso a médico e a exame. O problema não é diagnóstico indisponível, é fator de risco conhecido e não controlado por anos seguidos.
Onde está a oportunidade que o mercado ainda não capturou
A resposta óbvia seria mais check-up. A resposta estratégica é outra. Programas de bem-estar que se limitam a subsidiar academia e oferecer palestra anual não movem o ponteiro de risco cardiovascular, porque não tocam nas variáveis que realmente pesam. Sono, carga de trabalho, pressão arterial monitorada de forma contínua, marcador metabólico acompanhado ao longo do tempo e personalização por perfil de risco são o território onde o valor está.
Há também um sinal claro sobre execução. Nas unidades avaliadas, o tempo entre a chegada ao pronto-socorro com dor torácica e a realização do eletrocardiograma foi de 5 minutos em média, metade do limite de 10 minutos recomendado pela American Heart Association, e a mortalidade geral ficou em 2,4%. O setor já provou que sabe agir rápido quando o evento acontece. O jogo que ainda não foi vencido é o de evitar que ele aconteça uma década antes do esperado.
O infarto precoce é a fatura de uma exposição prolongada, cobrada de uma vez só. E é a prova de que o bem-estar corporativo do futuro é menos benefício de vitrine e mais engenharia de prevenção, com dado real, acompanhamento contínuo e desenho pensado para o ambiente que a sua equipe vive todo dia.
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