Como a nutrição pode influenciar a expressão dos nossos genes e transformar predisposição em possibilidade
“ Epigenética? Nutrigenômica? Calma. No final das contas, isso significa algo muito simples: aquilo que você come conversa diretamente com os seus genes.”
O DNA com o qual nascemos é único e nos acompanha por toda a vida, em essência, nascemos e morremos com a mesma sequência genética, sem que genes sejam acrescentados ou removidos. Ele carrega informações sobre nossa estrutura biológica, nossas predisposições e até algumas vulnerabilidades. É incrível notar que não temos como “fugir” do nosso arranjo genômico, nem da forma como fomos constituídos, ainda assim, compreender isso não precisa ser um exercício de determinismo. Pelo contrário: criar consciência sobre nossas tendências pode nos ajudar a agir diante dos desafios que nos foram postos nesta vida. Nas últimas décadas, a ciência tem mostrado algo importante: entre o gene e o resultado existe um espaço de influência chamado expressão gênica, e é nesse território que o ambiente atua. E posso dizer que poucos fatores ambientais são tão constantes e biologicamente relevantes quanto a alimentação em nossas vidas: a nutrição não fornece apenas energia; ela entrega moléculas capazes de interagir com vias metabólicas, mitocondriais e epigenéticas que ajudam a regular como os genes se comportam. Assim, embora não possamos mudar o nosso DNA, podemos influenciar profundamente a maneira como ele se manifesta.
Deixa eu te explicar melhor… Um exemplo interessante dessa interação envolve a vitamina C e a proteção do material genético. O metabolismo celular é o conjunto de reações químicas que acontece dentro das nossas células o tempo todo para produzir energia e manter o corpo funcionando. Podemos imaginar esse processo como uma pequena usina trabalhando continuamente dentro de cada célula, e assim como qualquer usina ou motor em funcionamento, ele também gera alguns subprodutos. Entre eles estão as chamadas espécies reativas de oxigênio, moléculas instáveis que se comportam como pequenas “faíscas” químicas. Quando aparecem em excesso, essas faíscas podem atingir estruturas importantes da célula, incluindo o DNA, provocando o que chamamos de estresse oxidativo. Um dos danos mais comuns ocorre em uma parte específica do DNA chamada guanina e, quando essa estrutura sofre oxidação, forma-se uma molécula chamada 8-OHdG, que funciona como uma espécie de “marca” deixada no DNA indicando que ocorreu dano oxidativo. Cientistas utilizam esse marcador justamente para identificar quando esse tipo de agressão aconteceu.
E a vitamina C ? Ela entra nessa história como um antioxidante, ou seja, uma substância capaz de neutralizar essas “faíscas” antes que elas causem danos maiores. Estudos também indicam que ela pode estimular mecanismos naturais de reparo do DNA, funcionando como se ajudasse as equipes de manutenção da célula a corrigir pequenos danos. Além disso, participa de processos de regulação epigenética ao favorecer o funcionamento de enzimas envolvidas no controle da metilação do DNA, um mecanismo que ajuda a regular quais genes ficam mais ou menos ativos. Em termos simples, nutrientes presentes em alimentos como acerola, goiaba, kiwi e caju podem ajudar o organismo a proteger e manter a integridade do seu próprio material genético.
Outro exemplo vem da relação entre alimentação, inflamação e expressão gênica. O tecido adiposo não é apenas um local de armazenamento de gordura; ele também funciona como um órgão metabolicamente ativo, capaz de produzir moléculas inflamatórias como o TNF-α, uma citocina associada à inflamação crônica de baixo grau presente na obesidade. Pesquisas em nutrigenômica mostram que intervenções dietéticas podem influenciar a expressão desse tipo de gene. Em um estudo de intervenção de oito semanas com mulheres com obesidade, uma dieta hipocalórica individualizada não apenas melhorou parâmetros antropométricos e metabólicos, como também apresentou associação com mudanças na expressão do gene TNF-α. Esses achados reforçam uma ideia importante: a alimentação não atua apenas sobre o peso corporal ou sobre níveis de colesterol, mas também pode modular vias moleculares relacionadas à inflamação e ao metabolismo.
Quando ouvimos termos como epigenética ou nutrigenômica, pode parecer algo distante da vida cotidiana. No entanto, o princípio por trás dessas áreas é bastante simples: o ambiente conversa com os genes, e a alimentação é uma das linguagens mais poderosas dessa conversa. Cada refeição fornece moléculas capazes de influenciar processos como inflamação, estresse oxidativo, reparo do DNA e funcionamento celular. Isso não significa que a nutrição seja capaz de anular completamente a genética, mas indica algo igualmente importante: nossos genes operam dentro de um contexto biológico moldado pelo estilo de vida. O DNA pode ser o ponto de partida da nossa história, mas as escolhas que fazemos todos os dias (inclusive aquilo que colocamos no prato) ajudam a escrever muitos dos capítulos que vêm depois.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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