O olfato que a medicina ainda não conseguiu copiar
Células tumorais alteram o metabolismo do organismo de uma forma muito específica. Esse processo gera moléculas chamadas COVs (Compostos Orgânicos Voláteis) que são liberadas na respiração, na urina, no suor e na saliva de quem tem câncer. O problema é que essas moléculas existem em concentrações extremamente pequenas, invisíveis para qualquer exame convencional em estágio inicial.
Cães conseguem diferenciar concentrações de compostos orgânicos voláteis a partir de 1 parte por trilhão (o equivalente a detectar uma gota de uma substância diluída em 20 piscinas olímpicas). Eles possuem entre 220 e 300 milhões de receptores olfativos, enquanto humanos têm cerca de 5 a 6 milhões. Não é apenas uma diferença de quantidade: a área cerebral dedicada à análise de odores em cães é, proporcionalmente, 40 vezes maior do que a humana. Esse sistema é tão preciso que raças como Labrador, Golden Retriever e Pastor Alemão têm sido estudadas especificamente pela medicina como ferramentas de rastreamento oncológico.
O que começou com relatos de tutores que notaram seus cães farejando insistentemente uma região do corpo virou campo de pesquisa científica séria. Uma revisão publicada em 2023 no PubMed analisou a literatura acumulada sobre detecção olfativa de tumores por animais e concluiu que há evidências consistentes de que cães treinados conseguem identificar amostras de pacientes com câncer em níveis significativamente acima do acaso (em múltiplos tipos de tumor e em diferentes fluidos biológicos, incluindo hálito e urina).
(Hackner et al., 2021, Journal of Breath Research | Brooks et al., 2015, Cancer Investigation — revisão de detecção olfativa canina)
O estudo que mudou o tamanho da conversa
Em novembro de 2024, um estudo duplo-cego publicado no Scientific Reports (grupo Nature) colocou essa hipótese dentro de um protocolo clínico rigoroso pela primeira vez em grande escala. A plataforma bio-híbrida desenvolvida pela SpotitEarly combinou cães treinados e inteligência artificial para analisar amostras de hálito de 1.386 participantes que haviam realizado exames de rastreamento ou biópsia para suspeita de câncer de mama, pulmão, próstata e colorretal. O estudo foi conduzido de forma cega: os cães não sabiam quais amostras eram positivas, e os pesquisadores não sabiam quais amostras os cães estavam avaliando.
Os resultados mostraram sensibilidade geral de 93,9% e especificidade de 94,3% na detecção dos quatro tipos de câncer investigados. Para referência: a mamografia convencional tem sensibilidade que varia entre 77% e 87% dependendo da densidade mamária. O achado mais inesperado foi outro: a plataforma apresentou resultados de alto desempenho também para 14 tipos de câncer para os quais os cães não haviam recebido nenhum treinamento específico (o que sugere que o olfato canino detecta uma assinatura metabólica comum ao processo tumoral em geral, e não apenas a marcadores específicos de cada doença).
Este é ainda um estudo de um único grupo de pesquisa, conduzido em condições controladas. Os resultados precisam de replicação independente antes de qualquer aplicação clínica. O que ele faz, no entanto, é elevar a discussão de curiosidade científica para dado que a medicina precisa levar a sério.
(Half et al., 2024, Scientific Reports — Nature Publishing Group | SpotitEarly Rainbow Study, ClinicalTrials.gov ID: NCT06255041)
E os gatos? A hipótese que a ciência ainda não fechou
Quando o assunto é detecção de câncer, os gatos vivem numa zona cinzenta: há relatos demais para ignorar e estudos controlados de menos para confirmar. Tutores descrevem gatos que passaram dias farejando ou tocando insistentemente uma região específica do corpo e que, após uma investigação médica, aquela região revelou um tumor. Histórias assim circulam há décadas. O problema não é a quantidade de relatos. É que relato não é evidência.
O que existe de concreto é anatômico e mais surpreendente do que parece. Embora os cães tenham mais receptores olfativos no total, cerca de 300 milhões contra 200 milhões dos gatos, os felinos possuem aproximadamente 30 receptores do tipo V1R (especializados em discriminar odores semelhantes entre si) enquanto os cães têm apenas 9. Isso significa que, quando se trata de diferenciar compostos químicos parecidos em baixíssima concentração (exatamente o tipo de tarefa que a detecção de COVs tumorais exige) os gatos podem ter, do ponto de vista da biologia olfativa, uma vantagem qualitativa que ainda não foi explorada pela pesquisa médica. Um estudo publicado no PMC sobre detecção olfativa de câncer em animais destacou que os gatos possuem uma superfície de mucosa olfatória quase duas vezes maior que a dos humanos, o que reforça seu potencial sensorial ainda subestimado pela ciência.
(Vitale Shreve & Udell, 2015, PMC — revisão sobre cognição felina | Natoli et al., 2019, PMC — Inside a Mystery of Oncoscience: The Cancer-Sniffing Pets)
Enquanto essa tecnologia amadurece, o recado prático permanece o mesmo que sempre foi: faça seus exames preventivos, respeite os intervalos recomendados e não substitua nenhuma investigação médica por nenhuma observação comportamental do seu cão ou de qualquer outro animal. O que muda, depois de tudo que a ciência acumulou nos últimos anos, é a forma como olhamos para o animal que dorme ao lado da nossa cama.
(Half et al., 2024, Scientific Reports | Zwischenberger & Crawford, 2023, PMC — Canine Scent Detection in Lung Cancer Screening)
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