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Seu sono tem uma idade, e ela pode dizer quanto você vai viver

Números sempre contam uma história. Da sua idade, medidas antropométricas de pescoço, cintura-quadril, circunferência abdominal, ou percentual de gordura ou de massa magra, métricas preveem uma variedade de resultados, seja sua maior proximidade com a aposentadoria ou seu risco de paradas respiratórias no sono, doença metabólica ou cardíaca.

Agora, os pesquisadores da Universidade de Stanford, descreveram outra métrica reveladora (que pode prever a mortalidade) e chama-se idade do sono. A idade do sono é uma idade projetada que se correlaciona à saúde com base na qualidade do sono.

Mas para que estudar a idade do sono?

Quando dormimos, ficamos desconectados das entradas sensoriais, mas ainda assim submetidos a um processo ativo de promoção de equilíbrio e homeostase das nossas máquinas celulares. Não é apenas o cérebro que está passando por um reset, uma reprogramação automática, mas o sistema musculoesquelético, endócrino-metabólico, cardiovascular e respiratório. Exemplo disso é que a frequência cardíaca e a respiração também mudam, e variações nelas podem ser preditores precoces de um problema de saúde, como ocorre na hipertensão arterial que muitas vezes começa por elevação basal da pressão noturna ou mesmo com ausência da queda fisiológica da pressão arterial no sono. Ou ainda como na ansiedade e depressão, em que as perturbações no sono são as primeiras queixas referenciadas.

Então, por exemplo, se você analisar as características do sono de dezenas de pessoas de 55 anos e calculá-las, terá uma ideia de como é a média do sono nessa idade. Por exemplo, alguém que tem 50 anos e dorme continuamente, com ciclos de sono profundo (fase N3 do sono não REM) e de sono REM, sem muita fragmentação, regular e reparador, poderia ter uma idade de sono de 40.

O professor Emmanuel Mignot, da Universidade de Stanford coordenou 12.000 estudos de sono, com características do sono dos participantes, como despertares, movimento do queixo e pernas, respiração, oxigenação e batimentos cardíacos. Seu objetivo era desenvolver um sistema utilizando o aprendizado de máquina, que atribui a idade do sono usando variações médias no sono mais relacionadas à mortalidade.

Classicamente a qualidade do sono é um dos primeiros e mais bem documentados sinais de envelhecimento e saúde ruim. A boa notícia: a gente pode melhorá-la.

E a descoberta mais importante do estudo foi que a fragmentação do sono, o número de despertares que observamos no eletroencefalograma (EEG) no exame do sono, a polissonografia, quando as pessoas acordam várias vezes ao longo da noite sem se lembrar, era o mais forte preditor de mortalidade.

A análise ainda carece de mais aplicações e validações, não é determinística, tanto que mesmo que você tenha uma idade de sono mais avançada do que sua idade cronológica, isso não significa que seu risco de mortalidade será maior. Você vê pessoas fumando e bebendo álcool aos 90 anos e se pergunta: “Como essa pessoa está sobrevivendo tanto tempo?” Há sempre uma enorme variação natural.

O sono ruim é encontrado na insônia, na apneia do sono, no bruxismo e no sono agitado, nas doenças neurodegenerativas, obesidade e na dor crônica. Não se sabe como o sono ruim causa, exacerba ou resulta dessas condições mas prever e tratar a doença antes que ela se manifeste e antecipe a morte e uma estratégia desejável.

Imagina se pudéssemos usar estudos de sono para prever o risco de ataque cardíaco de uma pessoa e usar essas informações para estruturar intervenções precoces?

De qualquer forma, enquanto você não faz seu teste de idade do sono, imagine que a melhor saída é torná-lo seu elixir da juventude e algumas medidas a partir de hoje podem te ajudar. Anotem aí:

Obter exposição à luz intensa assim que despertar pela manhã – de preferência com luz solar, contemplando a natureza. Estar exposto a luz durante o seu dia para sincronizar seu ritmo dia/noite com claro/escuro. Manter o ambiente de sono o mais escuro possível à noite, além do conforto, da temperatura ideal e do ritual pré sono bem estruturado. Treinar regularmente, mas não muito perto da hora de dormir, principalmente para os matutinos. Não beber álcool e cafeína na hora de dormir e evitar refeições noturnas pesadas contribuem para o sono saudável. O tempo ideal deve ser maior que duas a três horas para sua última alimentação. Ir para a cama e acordar no horário regular, junto com um sono contínuo, não tão fragmentado e com fases profundas repetidas com um tempo de 7-9h é a chave para melhorar seu sono. Isso não significa dormir demais, mas garantir que você acorde descansado. E claro, certifique-se de que qualquer distúrbio do sono seja tratado.

Já marcou seu médico do sono para te ajudar no cálculo?

REF.: Brink-Kjaer A, et al. Age estimation from sleep studies using deep learning predicts life expectancy. NPJ Digit Med. 2022 Jul 22;5(1):103. doi: 10.1038/s41746-022-00630-9.