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Uma pílula pode mudar o tratamento da perda de visão no diabetes

Perder visão quase nunca entra na conversa de longevidade. Mas deveria. Para milhões de pessoas que envelhecem com diabetes, a visão vai embora do jeito mais cruel possível: aos poucos, na rotina, até virar um limite real de independência.

É nesse ponto que a BioAge Labs, biotech da Califórnia, está tentando mudar a narrativa. A empresa anunciou que vai levar seu principal candidato a medicamento, o BGE-102, para a oftalmologia, com foco em edema macular diabético (DME) e com previsão de iniciar um estudo clínico de Fase 1b/2a em meados de 2026, segundo comunicado da própria companhia.

O problema que ninguém quer ter

O edema macular diabético é uma das causas mais comuns de piora de visão em pessoas com diabetes. Em termos simples, o açúcar alto por muito tempo machuca vasos minúsculos da retina, esses vasos começam a “vazar”, a região incha e a visão distorce.

Hoje, o tratamento costuma ser eficiente, mas pesado: muitos pacientes precisam de injeções dentro do olho, às vezes com frequência mensal, para controlar o inchaço e preservar a visão. Funciona, mas é invasivo, caro, exige adesão e cansa com o tempo.

A aposta da BioAge

A BioAge quer atacar um degrau antes, no motor da inflamação. O alvo é o NLRP3, um “gatilho” importante de inflamação que tende a ficar mais ativo com envelhecimento e estresse metabólico. Quando esse sistema exagera, dispara uma cascata inflamatória que pode prejudicar tecidos pelo corpo, incluindo a retina.

O BGE-102 é um inibidor oral de NLRP3. E aqui está o diferencial que faz a notícia ficar interessante: em oftalmo, muita coisa falha porque não chega bem na retina por via oral. A tese da BioAge é que este composto pode alcançar o tecido ocular e reduzir a inflamação sem depender só de intervenção local.

Se der certo, a promessa é clara: reduzir o peso das injeções frequentes e transformar uma doença tratada como “problema do olho” em algo mais conectado com a biologia sistêmica do envelhecimento.

O que já apareceu nos dados iniciais

A empresa cita resultados pré-clínicos em modelos que simulam doença ocular diabética, onde o BGE-102 teria ajudado a manter a integridade dos pequenos vasos da retina, com menos vazamento de fluido, que é justamente o mecanismo por trás do edema e da visão borrada.

Ela também menciona dados ligados ao envelhecimento da retina, com bloqueio de NLRP3 reduzindo o acúmulo de lipofuscina, um resíduo que se acumula nas células ao longo do tempo e se associa a processos degenerativos oculares.

Em humanos, o BGE-102 ainda está no começo. A BioAge afirma que, em um estudo de Fase 1 em andamento, o medicamento foi bem tolerado e reduziu sinais inflamatórios no corpo, incluindo marcadores conectados a envelhecimento metabólico e cardiovascular. O próximo passo é ver se esse efeito “entra no olho”.

Como deve ser o estudo no olho

O ensaio planejado para meados de 2026 deve avaliar o BGE-102 sozinho e também em combinação com terapias existentes. A pergunta, no fundo, é bem prática: dá para acalmar a inflamação por dentro e proteger a visão sem depender apenas de agulha no olho?

A estratégia do estudo também é inteligente por um motivo: antes de prometer melhora imediata na visão, a BioAge quer provar que o remédio está fazendo o trabalho básico onde importa. O plano inclui acompanhar sinais inflamatórios, como IL-6, no ambiente ocular, além de desfechos que o paciente sente, como visão e redução do inchaço na retina.

A empresa indica expectativa de leitura completa mais à frente, com horizonte de resultados em 2027.

O movimento maior por trás disso

O detalhe que muda o jogo não é só “um remédio novo”. É a ideia de que inflamação não é um problema isolado do olho, do coração ou do cérebro. É um processo de corpo inteiro que aparece de jeitos diferentes conforme a gente envelhece.

A BioAge está rodando esse desenvolvimento ocular em paralelo a um estudo cardiovascular. E isso resume a aposta: um mesmo alvo inflamatório, uma mesma molécula, vários órgãos. A empresa até descreve o BGE-102 como uma espécie de “pipeline em uma pílula”.

Por que isso importa para a longevidade real

Preservar visão é preservar autonomia. É continuar dirigindo, lendo, trabalhando, circulando, vivendo sem depender de alguém para o básico. Se uma terapia oral conseguir reduzir carga de tratamento e segurar inflamação relacionada ao diabetes e ao envelhecimento, a retina pode virar um dos melhores exemplos de que longevidade não é só viver mais, é manter função.

E aí fica a pergunta que vale acompanhar: quando a biologia do envelhecimento vira alvo terapêutico, o olho pode ser o próximo grande campo de batalha?

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