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Utah testa IA para renovar receitas médicas sem médicos no processo

Pela primeira vez nos Estados Unidos, um estado está permitindo que a inteligência artificial assuma, sozinha, uma das tarefas mais sensíveis da medicina: a renovação de prescrições. O projeto piloto acontece em Utah e autoriza um sistema de IA da healthtech Doctronic a renovar receitas de medicamentos para pacientes com doenças crônicas, sem envolvimento direto de médicos.

O experimento começou de forma discreta no fim de 2025 e funciona como um teste de confiança. Até onde pacientes, reguladores e o próprio sistema de saúde estão dispostos a delegar decisões clínicas a algoritmos?

Como o sistema funciona

Pacientes acessam uma plataforma digital que confirma se eles estão fisicamente em Utah. A partir daí, a IA cruza o histórico médico e apresenta uma lista de medicamentos elegíveis para renovação. O sistema faz as mesmas perguntas clínicas que um médico faria, avalia riscos, interações e sinais de alerta e, se tudo estiver dentro dos parâmetros, envia a receita diretamente para a farmácia.

O programa é limitado a cerca de 190 medicamentos de uso comum. Ficam de fora drogas de controle especial, como analgésicos opioides, medicamentos para TDAH e injetáveis.

Por que Utah está fazendo isso

Para o governo estadual, o objetivo é claro: reduzir custos, evitar interrupções no uso de medicamentos e aliviar a sobrecarga de profissionais de saúde, especialmente em áreas com escassez de médicos. Segundo autoridades locais, automatizar tarefas rotineiras libera tempo clínico para casos mais complexos e pode ampliar o acesso ao cuidado básico.

O modelo também serve como laboratório regulatório. Utah vê o projeto como uma forma de criar espaço para inovação em IA médica antes que regras federais mais rígidas sejam definidas.

O alerta dos médicos

Entidades médicas reagiram com cautela. A Associação Médica Americana afirmou que, embora a IA tenha potencial para transformar a medicina, retirar o médico do processo de prescrição pode gerar riscos, como uso indevido de medicamentos, falhas na identificação de sinais clínicos sutis e problemas de segurança do paciente.

Outro ponto sensível é a regulação. A Food and Drug Administration ainda não se posicionou oficialmente sobre o piloto. Caso decida enquadrar esse tipo de IA como dispositivo médico, a expansão do modelo pode enfrentar atrasos e exigências adicionais.

O que diz a empresa

A Doctronic afirma que seu sistema foi comparado a médicos humanos em 500 atendimentos de urgência e apresentou concordância de 99,2% nos planos de tratamento. A IA foi projetada para agir de forma conservadora, encaminhando automaticamente qualquer caso duvidoso para revisão médica.

Como sinal de responsabilidade, a empresa contratou uma apólice inédita de seguro de erro médico para sistemas de IA, assumindo riscos legais equivalentes aos de um profissional humano. Inicialmente, cada renovação custa US$ 4, valor que a startup diz ser temporário.

Um precedente para o futuro

Outros estados, como Texas e Arizona, já acompanham o piloto de perto. Se o modelo se mostrar seguro e aceito pelos pacientes, pode abrir caminho para uma nova etapa da medicina digital, na qual a IA não apenas apoia decisões, mas executa cuidados clínicos básicos de forma autônoma.

O movimento levanta uma questão central para o futuro da saúde: até onde automatizar significa ampliar acesso e eficiência e a partir de que ponto passa a ser um risco clínico e ético. Utah resolveu testar na prática. O resto do país está observando.

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