Tem gente que não erra na dieta, não pula o aquecimento, segue uma planilha bem estruturada e ainda assim acaba com dor no joelho, no tornozelo ou na planta do pé. Na maioria das vezes, o problema não está no treino, está no tênis.
O calçado esportivo não é um acessório, mas sim a parte do sistema de absorção de impacto do seu corpo. Cada passada durante uma corrida transmite uma força equivalente a duas ou três vezes o seu peso corporal para as articulações. Um tênis inadequado não distribui essa carga de forma eficiente, e o preço disso aparece cedo ou tarde.
O erro mais comum não é comprar um tênis ruim, mas comprar o tênis errado para você.
Há diferença importante entre um tênis de corrida, um de treino funcional e um de quadra. Um tênis de corrida é projetado para movimento linear, com amortecimento voltado para o calcanhar e o antepé. Usado em um treino de agachamento, burpee ou movimentação lateral, ele perde estabilidade justamente onde você mais precisa. O inverso também é verdade: um tênis de academia com solado rígido e base larga, ótimo para levantamento de peso, absorve mal o impacto em uma corrida de 5 km.
Além do tipo de atividade, existe outro fator que a maioria ignora na hora de escolher, que é o padrão de pisada. Pé pronado (que vira para dentro), supinado (que vira para fora) ou neutro exige estruturas de suporte diferentes. Usar um tênis neutro em um pé com pronação acentuada é como dirigir com o alinhamento torto: o carro até anda, mas o desgaste vem mais rápido do que deveria.
O que acontece quando o tênis não é adequado
Do ponto de vista ortopédico, o uso prolongado de calçado inadequado está associado a condições como fasciíte plantar (inflamação na sola do pé), síndrome da banda iliotibial (dor lateral no joelho comum em corredores), tendinopatia do tendão de Aquiles e estresse sobre a cartilagem do joelho, especialmente em quem já tem algum grau de desgaste articular.
Não é alarmismo, mas mecânica. O corpo compensa onde pode, e essas compensações, repetidas centenas de vezes por treino, geram sobrecarga cumulativa.
Como escolher melhor
Três perguntas simples orientam uma escolha mais inteligente:
- Qual atividade predominante? Corrida, musculação, treino funcional e esportes coletivos têm demandas biomecânicas distintas.
- Qual é o meu padrão de pisada? Uma avaliação postural ou baropodometria (exame que mede a distribuição da pressão plantar) responde isso com precisão.
- O tênis ainda está funcional? A vida útil de amortecimento de um tênis de corrida gira em torno de 500 a 800 km. Por fora, ele pode parecer novo. Por dentro, já perdeu a capacidade de proteger.
Treinar bem é uma decisão de médio e longo prazo. O tênis certo não vai melhorar seu rendimento da noite para o dia, mas o errado pode interromper seu progresso de forma inesperada. Vale a atenção.
Dr. Marcelo Kodja é ortopedista e traumatologista, especializado em cirurgia do joelho, medicina esportiva e tratamentos regenerativos.
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