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Wellness está na moda. Mas não está ao alcance de todos.

Uns anos atrás, conversei com uma mulher que acordava às quatro e meia da manhã. Não pra meditar, não pra fazer sua rotina matinal de cinco etapas. Pra pegar dois ônibus antes de começar o primeiro turno às seis. Quando eu perguntei se ela se exercitava, ela olhou pra mim como quem ouve uma pergunta num idioma que não fala.

Essa cena fica na minha cabeça toda vez que o feed enche de rotina matinal, smoothie verde e retiro de meditação.

O bem-estar virou linguagem, estilo de vida, mercado. Está em todo lugar, nos podcasts, nas capas de revista, nos algoritmos que aprenderam exatamente o que você quer ver. E a impressão que se cria é a de que todo mundo está vivendo assim. Que isso já se tornou o novo normal.

Mas não se tornou. E o problema não é só de preço.

Wellness exige mais do que acesso a um app ou a uma academia. Exige o que vem antes disso: a condição psíquica de conseguir parar. A estabilidade mínima para pensar em si. Tempo mental, não só tempo no relógio. Uma pessoa que trabalha doze horas por dia, com deslocamento longo e carga emocional alta, não está escolhendo não se cuidar. Ela está sobrevivendo dentro de um sistema que não deixa sobrar espaço para mais nada.

Nem todo bairro tem uma praça segura pra correr. Nem todo cansaço permite trocar por uma aula. E o repertório que transforma informação em prática pressupõe acesso a essa informação desde cedo, o que não é ponto de partida igual pra todo mundo.

O wellness se apresenta como universal. Funciona como privilégio. Não porque as pessoas que o praticam sejam insensíveis, mas porque as condições que ele exige não estão distribuídas igualmente.

E o discurso dominante, aquele que circula nas redes e movimenta bilhões, ainda fala de “escolhas de vida” como se escolha fosse sempre possível.

Existem projetos comunitários. Existem práticas simples que não custam nada. E isso importa, de verdade. Mas a questão não é se práticas acessíveis existem. É que a possibilidade de adotá-las já pressupõe um conjunto de condições que muitas pessoas simplesmente não têm.

O problema nunca foi o conceito de wellness. Foi a ilusão de que ele já chegou pra todo mundo.

E enquanto o movimento não for honesto sobre isso, vai continuar sendo, em grande parte, um espelho de quem já está bem, falando pra quem já pode ouvir.

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