A ideia de que bebedeira na juventude é só uma fase está com os dias contados. Um estudo da Escola Paulista de Medicina da Unifesp, com apoio da FAPESP, mostrou que beber em excesso na adolescência pode deixar marcas no comportamento que se estendem até a vida adulta. Os testes foram feitos em camundongos, e os resultados saíram nas revistas Alcohol: Clinical and Experimental Research e Physiology & Behavior.
Um cérebro ainda em obra
O cérebro está entre os últimos órgãos a completar sua formação. O córtex pré-frontal, área que comanda impulsos e decisões, só chega à maturidade por volta dos 25 anos. Boa parte da adolescência acontece com o freio ainda em construção.
E a exposição é real. Mesmo com a venda proibida para menores de 18, 5% dos adolescentes brasileiros de 12 a 17 anos tiveram ao menos um episódio de bebedeira em 30 dias. Na faixa de 18 a 24 anos, o índice salta para 20,5%.
O que os pesquisadores encontraram?
Para reproduzir esses porres, a equipe aplicou quatro doses altas de álcool nos animais durante a adolescência. Em uma pessoa, seria algo próximo de duas bebedeiras por mês ao longo de toda essa fase.
O efeito dependeu do momento da exposição. Machos que receberam álcool no início da adolescência passaram a assumir mais riscos quando adultos. Fêmeas expostas na mesma janela começaram a beber mais. Quando o álcool chegou no fim da adolescência, os dois sexos ficaram mais propensos a riscos.
Para a coordenadora Karina Possa Abrahão, professora da Unifesp, o álcool pode travar a etapa final de maturação do cérebro, “tornando aquele indivíduo adolescente por muito mais tempo, talvez a vida toda”.
Prevenção como estratégia de longevidade
O achado reforça a prevenção como jogo de longo prazo. Escolas, famílias, empresas de saúde e marcas que conversam com o público jovem ganham mais um argumento para tratar o álcool como tema de longevidade, e não apenas de comportamento.
O estudo foi feito em animais e ainda precisa ser confirmado em humanos. Em adultos mais velhos o álcool também deixa impacto, mas ele tende a ser menor.
A longevidade do futuro começa a ser construída muito antes da vida adulta. Quanto mais jovem o cérebro, maior a marca que o álcool pode deixar. Proteger essa janela é investir no desempenho de uma vida inteira.
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