As canetas como Mounjaro e Wegovy foram feitas para cortar a fome. Para quem trata obesidade ou diabetes, esse é exatamente o efeito esperado. O problema é que comer pouco e emagrecer rápido também são sinais clássicos de anorexia. Com a caneta no meio, esses sinais ganham um disfarce perfeito. Parecem só o remédio funcionando, e o transtorno pode passar batido pela família e até pelo médico.
O que é a agonorexia?
O endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), já deu nome ao fenômeno. O termo surgiu nos Estados Unidos e passou a ser usado no Brasil por Macedo, que também coordena o Núcleo de Endocrinologia do Exercício da Unifesp. A agonorexia é um quadro de anorexia puxado pelo remédio. A pessoa deixa de sentir fome, esquece de comer e desenvolve aversão à comida, muitas vezes exagerando no exercício e se afastando de eventos onde vai encontrar comida.
Ainda não existem critérios diagnósticos definidos, e o próprio Macedo descreve o quadro como um efeito farmacológico extremo, e não como um distúrbio mental clássico. Mas os riscos são concretos. Segundo ele, a perda de peso acelerada aumenta a formação de cálculos na vesícula, que podem evoluir para uma pancreatite.
Estética é o gatilho mais perigoso
Macedo relata atender muitos pacientes com esse perfil, principalmente entre quem usa as canetas sem indicação médica. O uso por pessoas sem obesidade ou diabetes e as doses altas logo no início, sem a progressão gradual recomendada, estão entre os principais gatilhos.
Outras entidades fazem o mesmo alerta. Em agosto, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou uma nota afirmando que o uso estético pode servir de gatilho para anorexia e bulimia em adolescentes, além de ansiedade e depressão ligadas à imagem corporal. A entidade chegou a pedir que a expressão “canetas emagrecedoras” seja trocada por “medicamentos para tratar a obesidade”, porque o apelido ajuda a banalizar o tratamento.
O recado para quem opera no bem-estar
Para o mercado, a agonorexia é um campo minado. Macedo critica clínicas que vendem protocolos caros com soro e pacotes de olho no lucro, e não na saúde. Quem trabalha com emagrecimento, seja clínica, academia, nutricionista ou plataforma digital, precisa entender que triagem e acompanhamento deixaram de ser detalhe. O especialista defende que o tratamento seja gradual e acompanhado por uma equipe multidisciplinar.
E existe uma pergunta que não pode faltar antes da primeira aplicação. Você já teve algum transtorno alimentar? Quem já passou por isso precisa contar ao médico antes de começar.
A caneta é tratamento para obesidade e diabetes, com acompanhamento médico. Não é atalho estético. O bem-estar que vale a pena é aquele que cuida do corpo sem adoecer a relação com a comida.
Se você se reconheceu neste texto, procure um médico ou psicólogo. Transtorno alimentar tem tratamento.
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