Alzheimer tem um histórico meio cruel: a terapia vira manchete, a expectativa sobe, e depois muita gente descobre que o ganho é pequeno para o preço, para o risco e para a complexidade do tratamento. Nesse cenário, a Novartis foi lá e assinou um acordo com a SciNeuro que pode chegar a US$ 1,7 bilhão. Só que o mais interessante não é o número. É a tese por trás.
A Novartis ganhou o direito global de desenvolver um novo programa de anticorpos contra placas de amiloide, e a SciNeuro leva US$ 165 milhões de entrada, mais até US$ 1,5 bilhão em pagamentos por metas (testes, aprovações e vendas) e royalties se isso virar produto. A previsão é concluir a transação no primeiro semestre de 2026, dependendo das etapas regulatórias.
O problema que pouca gente fala
O cérebro tem um “porteiro”. É um filtro natural do corpo, feito para barrar toxinas e ameaças. O efeito colateral é óbvio: esse filtro também dificulta a entrada de muitos tratamentos. A consequência é um jogo ruim para Alzheimer: às vezes você precisa aumentar dose para tentar fazer o remédio “pegar”, e isso pode aumentar o risco sem garantir um benefício proporcional.
É aqui que entra a promessa da SciNeuro. O programa usa uma tecnologia do tipo brain shuttle, que dá para entender como uma “carona guiada” para ajudar o tratamento a atravessar esse filtro e chegar ao cérebro com mais eficiência. A aposta é simples de explicar: mais tratamento onde importa, menos impacto no resto do corpo.
Por que isso importa agora
Porque as terapias anti-amiloide que já existem ajudam a entender o tamanho do desafio no mundo real. O Leqembi, por exemplo, é uma infusão na veia a cada duas semanas e carrega alerta para alterações vistas na ressonância, incluindo inchaço e pequenos sangramentos. Já o Kisunla também é infusão mensal e teve atualização de dose mais gradual para reduzir o risco de inchaço cerebral, segundo a Reuters.
Ou seja, não é só descobrir “o alvo certo”. É fazer o tratamento chegar com eficiência e com um nível de segurança que dê para escalar.
Sem hype, só a leitura correta
Isso não é “cura chegando”. É uma aposta grande em uma tecnologia que ainda precisa provar, em gente, que melhora a entrega e que isso vira benefício clínico de verdade. Mas o recado do mercado é claro: talvez o próximo salto no Alzheimer venha menos de “um ingrediente novo” e mais de uma logística melhor para o remédio entrar no cérebro.
Agora me diz: você acha que o futuro do Alzheimer está em criar novos remédios, ou em finalmente aprender a entregar melhor os que já existem?