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Jejum e a Ciência do Desconforto: Por que seu corpo precisa de uma pausa na comida ( e no conforto )

Vivemos na era mais confortável da história da humanidade. A comida está disponível a um clique de distância, a temperatura do ambiente é sempre controlada pra ficar o mais agradável possível e o esforço físico foi, em grande parte, removido da nossa rotina. Na Pandemia vimos que é possível viver uma vida deitado confinado no sofá (se com saúde mental, é outra conversa).

Essa busca incessante por conforto criou um paradoxo: nunca estivemos tão confortáveis e, ao mesmo tempo, tão metabolicamente doentes. A verdade é que o corpo humano não foi feito para viver em um estado de conforto perpétuo. Ele foi forjado em um ambiente de escassez, imprevisibilidade e variação. É precisamente a AUSÊNCIA desses estressores ancestrais que está na raiz de muitas das nossas doenças crônicas modernas.

E não, não estou dizendo que queremos retroceder nos avanços tecnológicos que nos trouxeram até aqui. Mas mudamos tanto nosso ambiente com esses avanços que os desafios mudaram completamente. Vamos ao mais gritante?

O problema de comer o dia inteiro

Um dos pilares desse conforto moderno é a alimentação constante – e de péssima qualidade (por que você não come brócolis e salmão de lanchinho…)

A recomendação de comer de três em três horas, difundida por décadas, nos ensinou a temer a fome e a manter nosso sistema digestivo perpetuamente ocupado. Só que pra conseguir passar o dia ruminando sempre alguma coisa, surgiram os lanchinhos práticos.

Esses lanchinhos “práticos’ tem um custo alto. Os ultraprocessados tem algo em comum – por não serem comida de verdade, não são lidos como tal. O primeiro preço que eles cobram é ESTIMULAR o apetite. O segundo é a resposta hormonal que eles provocam. È como se eles tivessem um manual de instrução, e a ordem é – ARMAZENE ESSAS CALORIAS!!! Isso porque cada vez que comemos, nosso pâncreas libera insulina para transportar a glicose do sangue para dentro das células pra que elas sejam aproveitadas. E isso é bom.
Só que a insulina é AO MESMO TEMPO um hormônio de armazenamento. Enquanto ela está alta a queima de gordura é bloqueada.

Agora me fale se você continua achando que comer a cada 3 h, aqueles lanchinhos que mandam ESSE recado ainda parece uma boa idéia?

É um preço muito caro manter a sua insulina cronicamente elevada por uma rotina diária repleta de refeições,  lanchinhos, snacks, beliscos. O corpo moderno perdeu a chance de mudar de disco. De acionar o interruptor para o modo de “QUEIMA de energia”. Estamos TRAVADOS no modo armazenamento de gordura.

A fome constante, a dificuldade de perder peso e a fadiga crônica não são falhas de caráter; são sintomas de um sistema hormonal desregulado pela frequência alimentar excessiva. Some agora o sedentarismo, o cansaço, horas de sono insuficiente. E a vontade de se recompensar por tudo isso com adivinha? Mais um lanchinho, ou um brigadeiro, ou uma pizza.

Jejum não é dieta: é um DESCANSO

Primeiro ponto a esclarecer: jejum não é uma dieta. Dietas são, por definição, sobre *o que* você come. O jejum é sobre *quando* você come. Ele não é uma invenção moderna ou uma moda passageira; é a ausência programada de comida, uma prática tão antiga quanto a própria humanidade.

Ao criar uma janela de tempo sem ingestão calórica, o jejum força o corpo a fazer o que ele foi projetado para fazer desde os primórdios: baixar os níveis de insulina. Quando a insulina cai, o corpo finalmente consegue mudar a chave e acessar seus estoques de gordura para obter energia. Essa troca de combustível, da glicose para a gordura, é a **mudança metabólica** fundamental que o jejum é capaz de resgatar.

Não se trata de restrição calórica severa ou de passar fome indefinidamente. Trata-se de dar ao corpo um descanso digestivo e hormonal. Um jejum de 12 a 16 horas, que pode ser tão simples quanto jantar mais cedo, eliminar aquela ceia e tomar o café da manhã um pouco mais tarde, já é suficiente para iniciar esse processo. Durante esse período, o corpo não está apenas queimando gordura. Ele está ativando vias de reparo celular, como a autofagia, um processo de “reciclagem” que limpa componentes celulares danificados e que está associado à longevidade e à redução do risco de doenças neurodegenerativas.

Agora sim, você está pronto para o final:

Depois de refletir aqui comigo, é mais fácil entender que para um mundo que está sofrendo por doenças ligadas ao EXCESSO DE ALIMENTOS, E DE PESSIMA QUALIDADE, faz sentido que a solução seja remover os lanchinhos de má qualidade e focar as refeições com comida de verdade. Menos, porém MELHOR.

Parar de comer o dia inteiro em um mundo que nos vende conforto a todo custo é difícil. Escolher o desconforto estratégico é um ato radical de autocuidado.  Sim, mudar é desconfortável. Mas tem ganhos impagáveis: a liberdade de não ser controlado pela fome, a liberdade de ter clareza mental e energia estável, e a liberdade de permitir que seu corpo funcione da maneira como a evolução o desenhou. A fome ocasional não é uma emergência; é um sinal de que seu metabolismo está se tornando flexível novamente.

Mas quem ganha é você e a sua saúde. Já aviso que a indústria dos lanchinhos não gosta muito desse raciocínio lógico e embasado, portanto você não vai ouvir mais muito disso por aí!

Então eu desejo que você busque restaurar um ritmo ancestral que perdemos: o ritmo de comer e, igualmente importante, o de não comer.