Filhos saem de casa, netos crescem, amigos partem. Com o tempo, uma das coisas mais perigosas que pode acontecer com um idoso não é uma doença… é a perda de propósito. Aquela sensação silenciosa de que não há ninguém te esperando, nada urgente para fazer, nenhuma razão para se levantar mais cedo. E é exatamente aí que um animal de estimação muda o jogo.
Uma metanálise publicada em 2019 no Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes, da American Heart Association, reuniu dados de mais de 3,8 milhões de pessoas e chegou a uma conclusão surpreendente: ter um cão reduz em 24% o risco de morte por qualquer causa. Entre idosos que viviam sozinhos e haviam sofrido um infarto anteriormente, essa redução chegou a 33%. O animal não é apenas companhia… ele é, do ponto de vista cardiovascular, um fator de proteção comparável a uma intervenção médica.
Ter um pet cria rotina, responsabilidade, cria alguém que depende de você todos os dias. Para o cérebro humano envelhecido, isso funciona como combustível. Os japoneses chamam esse estado de Ikigai: a razão de existir. Estudos conduzidos no Japão demonstram que idosos socialmente isolados com cães apresentam saúde psicológica equivalente à de idosos que vivem com a família. O pet não preenche um vazio emocional qualquer. Ele preenche um vazio que, sem ele, pode virar abismo.
(Kramer et al., 2019. Circulation: Cardiovascular Quality and Outcomes — American Heart Association)
O que acontece no cérebro e no corpo:
Quando um indivíduo olha nos olhos do seu cachorro ou acaricia o seu gato, o cérebro libera ocitocina: o hormônio do vínculo e da conexão social. Em resposta direta, os níveis de cortisol caem… O cortisol crônico é tóxico para o hipocampo, a região responsável pela memória de longo prazo. Menos cortisol significa menos destruição cerebral e, consequentemente, menos risco de demência. O Kurokawa Study, realizado com idosos vivendo em comunidade, encontrou uma correlação direta entre níveis mais altos de ocitocina e maior volume hipocampal 7 anos depois; ou seja, o cérebro de quem mantém vínculos afetivos literalmente encolhe menos com a idade.
Essa queda do cortisol desencadeia uma sequência de efeitos que pesquisadores da área chamam de “cascata de bem-estar”: a dopamina sobe, a serotonina aumenta, o sistema nervoso migra para o estado parassimpático. De acordo com uma revisão publicada no Frontiers in Psychology (Beetz et al., 2012), a ativação da ocitocina pelo contato com animais é o mecanismo central por trás da maioria dos benefícios documentados na interação humano-animal. E o tempo necessário para isso acontecer é menor do que se imagina: cães de terapia em asilos mostram reduções significativas de ansiedade e cortisol com sessões de apenas 15 a 20 minutos.
Interpretar as reações do animal, perceber o que ele quer, responder às suas pistas comportamentais… Tudo isso mantém ativas as redes neurais da linguagem e da empatia. O Dog Aging Project, estudo longitudinal da Universidade de Washington que acompanha mais de 45.000 cães domésticos, publicou dados mostrando que cães fisicamente ativos têm probabilidade significativamente menor de desenvolver disfunção cognitiva e que o mesmo padrão se repete em humanos. Cuidar da saúde do animal cria um efeito espelho: quem garante o passeio do cachorro acaba caminhando junto. Quem controla a dieta do pet passa a prestar mais atenção na própria alimentação.
(Beetz et al., 2012. Frontiers in Psychology | Dog Aging Project — Creevy et al., 2022. Nature, vol. 602)
O compromisso que vem com o amor
Se você incentiva um familiar a ter um pet para resgatar seu propósito de vida, você está assumindo um compromisso moral com aquele animal também. Não dá para separar as 2 coisas.
O abandono de pets após a morte ou incapacitação de tutores idosos é uma crise real e crescente. A família corre para organizar o inventário e ninguém quer assumir a responsabilidade do animal. O pet,que já está em luto pelo tutor, vai parar numa ONG superlotada ou na rua. Um animal mais velho, fora do seu ambiente, tem chances mínimas de adoção. O sofrimento é concreto e pode ser evitado!
No Brasil, o testamento com encargos permite destinar uma parte da herança a um familiar ou amigo sob a condição explícita de assumir os cuidados do animal, com descumprimento passível de perda do benefício. Também é possível criar um fundo específico para cobrir despesas veterinárias e de alimentação pelo restante da vida do pet. O mais importante, e mais simples, é que a família defina com antecedência quem será o responsável pelo animal em caso de hospitalização ou falecimento do titular e que isso seja formalizado enquanto o mesmo ainda tem plena capacidade de decidir.
A longevidade da terceira idade pode ser nutrida pelos pets e a segurança deles precisa ser garantida pela família. São 2 responsabilidades que não existem uma sem a outra e entender isso é o que transforma um gesto de carinho num ato de cuidado completo.
(Instituto Pet Brasil, 2023 | Código Civil Brasileiro, art. 82 — bens semoventes)
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