Por muito tempo, intestino foi assunto de gastroenterologista e humor foi assunto de psiquiatra — duas especialidades, dois territórios, pouca conversa entre eles. A ciência mais recente vem desmontando essa divisão: existe um eixo intestino-cérebro, uma via de comunicação bidirecional e constante, e ele está ganhando peso crescente nas estratégias de tratamento de ansiedade e depressão.
Quando o intestino entra na conversa sobre humor
A psiquiatra Uma Naidoo, formada em Harvard e à frente do Centro de Neurociência Nutricional e Psiquiátrica do Massachusetts General Hospital, é uma das vozes que ajudou a popularizar o conceito de “psiquiatria nutricional” — a ideia de que o microbioma intestinal, o conjunto de trilhões de bactérias que vivem no intestino, participa ativamente da regulação do humor, e não apenas da digestão.
A explicação passa pela produção de neurotransmissores: boa parte da serotonina do corpo é produzida com participação do intestino, segundo reportagem da NPR que cita pesquisa da área. Quando a composição da microbiota está alterada — um estado chamado disbiose —, essa produção pode ser afetada, com reflexo direto sobre o cérebro.
O que os estudos de maior peso mostram
A evidência mais robusta sobre o tema vem de revisões sistemáticas publicadas na JAMA Psychiatry. Um estudo de 2021 já apontava associação consistente entre composição do microbioma e sintomas depressivos; uma atualização publicada em 2023 pela mesma equipe de pesquisadores do King’s College London reforçou que intervenções voltadas ao intestino — como uso de probióticos específicos — vêm sendo testadas como estratégia complementar no tratamento de quadros depressivos e ansiosos.
Outro estudo, publicado na Nature Communications com mais de 1.000 participantes do Rotterdam Study, identificou treze tipos de bactérias intestinais associadas a sintomas depressivos — todas ligadas à produção de neurotransmissores-chave, como serotonina e GABA.
Tratamento não é substituído, é ampliado
Os próprios pesquisadores fazem a ressalva: comida e cuidado com o microbioma não substituem terapia ou, quando indicado, medicação. O que a ciência sugere é que esses cuidados passam a fazer parte do mesmo ecossistema terapêutico — alimentos fermentados, fibras prebióticas e ômega-3 aparecem com associação consistente a melhora de sintomas de humor, enquanto dietas ricas em ultraprocessados e açúcar aparecem associadas, em estudos observacionais, a piora de sintomas ansiosos e depressivos.
Fontes científicas citadas: Nikolova VL, Cleare AJ, Young AH, Stone JM. “Gut Feeling: Randomized Controlled Trials of Probiotics for the Treatment of Clinical Depression.” JAMA Psychiatry, 2023. Nikolova VL et al. “Perturbations in Gut Microbiota Composition in Psychiatric Disorders: A Review and Meta-analysis.” JAMA Psychiatry, 2021. Radjabzadeh D et al. “Gut microbiome-wide association study of depressive symptoms.” Nature Communications, 2022.
Livro de referência: “Seu Cérebro Bem Alimentado” (This Is Your Brain on Food), Dra. Uma Naidoo, Editora Fontanar, 2021.
Quer continuar por dentro do que realmente está apostando no bem-estar?
A newsletter da FitFeed entrega, toda semana, um radar com os movimentos mais importantes do setor. Inscreva-se em 👉 https://fitfeed-newsletter.beehiiv.com/