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4 em cada 10 pessoas com insônia recorrem a remédio que não trata insônia

Culpar apenas o paciente é simplificar demais o jogo. Um estudo do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP, publicado na revista Sleep Science e conduzido pela psicóloga Renatha El Rafihi Ferreira, analisou 1.158 pacientes e encontrou um retrato incômodo. Entre quem procurou tratamento psicológico para insônia, 60% já usava algum medicamento para dormir. E 39% recorriam a produtos de venda livre, como antialérgicos e relaxantes musculares, que provocam sonolência como efeito colateral e não tratam a insônia.

O que o balcão da farmácia está revelando

Esses quase 4 em cada 10 não são um desvio de comportamento isolado. São a resposta previsível de quem tem um problema urgente e nenhuma porta acessível. A pessoa não dorme, precisa trabalhar no dia seguinte, e a solução mais rápida está a uma quadra de distância, sem receita e sem consulta.

O estudo mostra ainda a força dos controlados nesse cenário. Hipnóticos aparecem em 44% dos casos, com destaque para o zolpidem, e benzodiazepínicos em 37,9%, com o clonazepam à frente. São classes com efeitos adversos que podem ser sérios no longo prazo. O problema não é a existência do medicamento, é o medicamento virar primeira linha por falta de alternativa disponível.

A alternativa que funciona e quase ninguém alcança

A terapia cognitivo comportamental para insônia é o tratamento de primeira linha reconhecido, funciona sem medicação e segue subutilizada no Brasil. Mais recentemente entrou também a Terapia de Aceitação e Compromisso, que amplia o olhar para além dos sintomas e trata a insônia como sinal de padrões maiores na vida do paciente.

Existe aqui um desequilíbrio clássico de mercado. De um lado, uma solução eficaz, sem efeito colateral relevante e com evidência sólida, presa dentro de um funil estreito de acesso. Do outro, uma solução de conveniência disponível 24 horas por dia em qualquer esquina. Enquanto essa assimetria não for resolvida, o comprimido continua ganhando por WO.

Sono é indicador de negócio, não detalhe pessoal

A insônia atinge até um em cada três brasileiros e derruba saúde, bem-estar e produtividade. Para quem lidera empresas, isso não é estatística distante. É desempenho cognitivo em queda, absenteísmo, erro operacional e turnover.

O estudo aponta ainda que o consumo de medicação varia por recorte social, com 74% de pessoas brancas usando remédios para dormir contra 26% de pretos e pardos, independentemente da gravidade do quadro. Isso indica que o acesso, e não só a doença, define quem é tratado e como. Para o setor de bem-estar, esse é justamente o espaço em branco. Programas de sono baseados em abordagem comportamental, escaláveis por plataforma digital e integrados a benefício corporativo, atacam um problema enorme com evidência do lado certo.

Sono deixou de ser assunto de travesseiro e virou infraestrutura de performance. Quem construir acesso real ao tratamento comportamental, e não apenas mais uma prateleira de suplemento, vai ocupar um dos nichos mais mal atendidos do mercado de longevidade.

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