Existe um dado de 2009 que circula há anos em ambientes científicos e que nunca ganhou a atenção pública que merecia: O NHANES II Mortality Follow-up Study. Um dos mais longos estudos de saúde populacional já conduzidos nos Estados Unidos, com mais de 4.400 participantes acompanhados por 20 anos. Ele investigou se ter ou ter tido um gato influenciava o risco de morte cardiovascular. Após ajuste para idade, gênero, etnia, pressão arterial, tabagismo, diabetes, colesterol e índice de massa corporal, participantes com histórico de posse de gatos apresentaram risco de morte por infarto 37% menor do que aqueles que nunca tiveram gatos… uma redução estatisticamente significativa, com intervalo de confiança de 0,44 a 0,88. O estudo foi publicado no Journal of Vascular and Interventional Neurology e permanece como um dos poucos trabalhos que analisou o efeito cardiovascular do gato de forma independente do cão.
A relação que bate sem parar…
Em 2022, um estudo europeu publicado no European Journal of Ageing analisou 23.274 adultos com mais de 50 anos em múltiplos países, como parte do Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe (SHARE), acompanhados por quase 10 anos. Os autores confirmaram que tanto a posse atual de gatos, como o histórico de já ter tido um gato foram associados a menor mortalidade cardiovascular entre idosos, replicando em outra população e em outro continente o que o NHANES havia encontrado.
O mecanismo mais provável envolve a regulação do eixo do estresse. Um estudo conduzido no Japão em 2023 e publicado na revista Animals acompanhou 32 tutores de gatos interagindo com seus animais por 10 minutos em ambiente doméstico e mediu cortisol, ocitocina e variabilidade da frequência cardíaca antes, durante e depois. A interação livre com o gato reduziu o estado de excitação emocional e promoveu alterações autonômicas consistentes com relaxamento. Para pessoas com mobilidade reduzida ou condições que limitam o exercício, isso tem implicação direta: o gato oferece parte dos benefícios fisiológicos do vínculo humano-animal sem exigir nenhum esforço físico do tutor.
(Qureshi et al., 2009, Journal of Vascular and Interventional Neurology — NHANES II | Tsokos et al., 2022, European Journal of Ageing — SHARE | Ito et al., 2023, Animals — MDPI)
Os segredos que se escondem por trás do ronronar
Existe algo acontecendo quando um gato ronrona sobre o peito de uma pessoa que a medicina ainda está aprendendo a quantificar. Estudos de bioacústica registraram as frequências do ronronar em 44 felídeos diferentes (incluindo guepardos, ocelotes, pumas, servals e gatos domésticos) e todos produziram frequências dominantes entre 25 e 150 Hz. Isso não seria relevante se não fosse por uma coincidência notável: essa é exatamente a faixa de frequência utilizada em medicina para estimulação mecânica de tecido ósseo.
Estudos de terapia vibracional mostram que frequências entre 25 e 50 Hz podem melhorar a densidade óssea, fortalecer tendões e articulações, estimular a reparação de fraturas e auxiliar na cicatrização de feridas. O trabalho do Dr. Clinton Rubin, do Departamento de Engenharia Biomédica da SUNY, demonstrou que a exposição a vibrações de 30 Hz por 20 minutos ao dia, cinco vezes por semana, iniciou sinais de reparo ósseo em ovelhas mais velhas.
Em 2017, Zhao et al. demonstraram que frequências de 50 Hz especificamente induziram a diferenciação de células estromais da medula óssea em osteoblastos (células construtoras de osso) acelerando a consolidação de fraturas.
Para um país onde a osteoporose afeta cerca de 10 milhões de pessoas, segundo o Ministério da Saúde, e onde a fratura de quadril em idosos é associada à mortalidade de até 20% no primeiro ano, esse é um campo que merece muito mais atenção científica do que tem recebido. Precisa de mais estudos? Sim! E eles devem ser feitos!
(Muggenthaler, 2001, Fauna Communications Research Institute — The Felid Purr: A Healing Mechanism? | Rubin et al., SUNY Department of Biomedical Engineering | Zhao et al., 2017, Low-Frequency Vibration Treatment of Bone Marrow Stromal Cells)
Saúde mental e solidão
Um estudo longitudinal publicado no PLOS ONE em 2023 pela Universidade de Purdue acompanhou 4.237 participantes (divididos entre não-tutores, tutores de cães e tutores de gatos) através de 4 fases distintas da pandemia de COVID-19. O vínculo entre responsáveis e seus animais se aprofundou ao longo do tempo em ambos os grupos, e tanto cães, como gatos foram associados a reduções nos níveis percebidos de estresse e solidão.
Uma metanálise publicada em 2025 nos Annals of General Psychiatry reuniu dezenas de estudos sobre posse de pets e risco de depressão. Entre os achados, uma pesquisa nacional de 2023 com 2.200 adultos americanos encontrou que 86% dos tutores de pets relataram efeitos positivos na saúde mental atribuídos ao seu animal.
(Ogata et al., 2023, PLOS ONE — Purdue University | Annals of General Psychiatry, 2025 — metanálise pet ownership e depressão | Endo et al., 2020, International Journal of Environmental Research and Public Health)
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