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A revolução da nutrição de precisão

A próxima revolução do wellness não será coletiva, mas sim individual. Agora, precisamos abandonar a ideia de que existe um manual alimentar que serve para todos. Você consegue acreditar que o mesmo alimento pode fazer muito bem para uma pessoa e para outra ser catastrófico? Hoje, falar de saúde sem falar sobre nutrição é impensável. Nos últimos anos, a atuação do profissional nutricionista se tornou papel principal nos desfechos de saúde, tratando um dos pilares mais importantes para a manutenção da vida e prevenção de patologias. Mas dentro desse cenário ainda surge o questionamento prático: o que comer para se manter saudável?

Muitos estudos revelam que cada um de nós é único, inclusive quando o assunto é nutrição. Enquanto para um indivíduo um alimento melhora marcadores metabólicos, para outro pode aumentar o risco inflamatório, por exemplo. Isso exige que avancemos além de uma prescrição alimentar padrão. A saúde ideal não pode mais ser baseada em médias. Ela precisa ser baseada em você.

A Revolução da Nutrição de Precisão

No centro dessa transformação está a Nutrição de Precisão. A partir das ciências ômicas, passamos a avaliar o indivíduo em profundidade: expressão gênica, perfil metabólico, inflamação silenciosa, composição do microbioma, entre outros. Com essas ferramentas estratégicas, levamos o cuidado nos atendimentos ao patamar máximo de individualização.

Assim como a medicina de precisão, a nutrição de precisão busca compreender os efeitos da complexa interação entre genética, microbioma, metabolismo, ambiente alimentar, atividade física, além de fatores comportamentais. Somente com uma compreensão sólida das contribuições e inter-relações desses fatores será possível desenvolver orientações nutricionais direcionadas para indivíduos diversos em um mundo altamente diverso.

Afinal, para quem realmente é a Nutrição de Precisão?

Depois de anos atuando como pesquisadora e nutricionista, posso afirmar que esse conceito é essencial para todos, mas seu potencial transformador é mais evidente para dois grandes grupos:

1. Os “fora da média”

Aqueles que não são a média estatística. Pessoas que seguem a dieta recomendada e não respondem como deveriam, que treinam e não evoluem, suplementam e não sentem diferença… que fazem “tudo certo” e ainda assim não colhem os resultados esperados. São indivíduos cuja biologia simplesmente não se encaixa no protocolo padrão. Eu, inclusive, me reconheço nesse grupo.

2. Os estrategistas da própria saúde

Pessoas que não querem esperar o diagnóstico para agir. Aqui se encaixam aqueles que entendem que colesterol alterado, pré-diabetes, inflamação crônica, ansiedade recorrente, deficiências nutricionais ou risco cardiovascular não surgem do nada, mas sim são construídos silenciosamente ao longo do tempo.

Por que somos tão diferentes?

Mesmo diante da complexidade do assunto, a pergunta sempre foi: “por que duas pessoas comem a mesma coisa e têm respostas completamente diferentes?”

Hoje sabemos que:

• Pessoas têm respostas glicêmicas distintas ao mesmo alimento

• O microbioma influencia a forma como metabolizamos os nutrientes

• Polimorfismos genéticos alteram a demanda de micronutrientes

• O ritmo circadiano modifica a tolerância metabólica ao horário da refeição

Para termos uma dimensão da influência da genética na obesidade, 7 em cada 10 pacientes que possuem polimorfismos no gene FTO possuem maiores chances de desenvolver a patologia. Isso explica por que algumas pessoas não possuem apenas a tendência de ganhar mais peso, mas também de perder menos peso ao fazer uma dieta. O tipo mais comum é a obesidade poligênica, que progride lentamente e surge com influência do meio ambiente. Essas variações são altamente expressas no cérebro em regiões que controlam o apetite e a saciedade. Isso não é mais teoria. É dado.

O Futuro Chegou

O maior programa público de pesquisa em nutrição dos EUA hoje,

Nutrition for Precision Health, ligado ao NIH, tem exatamente esse objetivo: entender como prever a resposta individual aos alimentos. Estamos saindo da era do “protocolo padrão” e entrando na era da alta personalização, na qual biologia, comportamento, genética e microbioma são utilizados de maneira integrada para a tomada de decisão estratégica. O novo ouro do wellness não é o exame, mas a interpretação!

Em menos de 10 anos, o atendimento de excelência será aquele que:

• Usa dados individuais de forma integrada

• Prevê resposta metabólica

• Ajusta estratégia com base em evidência

• Respeita rotina e adesão

Foi-se o tempo de discutir se jejum é melhor do que low carb ou high carb… O que definirá as diretrizes do seu planejamento é o seu status metabólico atual, seu DNA, seu intestino, hormônios e assim por diante. A melhor dieta será a que se adequar ao seu metabolismo, e essa é a revolução silenciosa que já começou!

O Equilíbrio Entre Ciência e Prática

Alta personalização não substitui fundamentos básicos como qualidade alimentar, controle calórico, sono e atividade física. Ela refina a estratégia com base nos pontos cegos que somente o profissional altamente treinado terá a capacidade de avaliar. Nos próximos anos, veremos maior integração entre dados biológicos, inteligência artificial e acompanhamento longitudinal. O foco deixará de ser apenas “qual dieta funciona” e passará a ser “para quem, em qual contexto e por quanto tempo”.