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Corrida melhora o sono. Mas o sono melhora a corrida?

As ruas do Rio voltaram a ficar tomadas por corredores. Estava lá nos 21km. 

A cada ano cresce o número de pessoas que descobrem na corrida algo muito maior do que um esporte. 

Correm para emagrecer. Correm para aliviar a ansiedade. 

Correm para encontrar amigos. 

Correm para encontrar a si mesmas.

E junto com o aumento do número de corredores cresce também outro fenômeno inevitável: as lesões.

Quando elas aparecem, quase sempre procuramos explicações nos lugares mais óbvios.

O treino estava forte demais.

A planilha não respeitou a recuperação.

O tênis estava errado.

A musculatura estava fraca.

Tudo isso pode ser verdade.

Mas um estudo recente com mais de 400 corredores recreacionais trouxe uma hipótese desconfortável: talvez algumas lesões estejam começando muito antes do primeiro passo da corrida.

Talvez elas estejam começando durante a noite.

Os pesquisadores avaliaram três características simples do sono: quantas horas as pessoas dormiam, como avaliavam a qualidade do próprio sono e quantos problemas apresentavam durante a noite, como despertares frequentes, dificuldade para adormecer ou sensação de acordar cansado.

A partir dessas informações, identificaram diferentes perfis de sono.

Um deles chamou mais atenção.

Os chamados “maus dormidores”.

Pessoas que dormiam menos, dormiam pior e acumulavam mais problemas relacionados ao sono.

Foi justamente nesse grupo que a ocorrência de lesões foi mais frequente.

O estudo não prova que dormir mal causa lesões. A ciência exige mais tempo, metodologia diferente e mais estudos para afirmar isso com segurança.

Mas ele reforça algo que muitas vezes esquecemos.

O corpo não se adapta ao treino durante a corrida.

O corpo se adapta ao treino durante a recuperação.

É durante o sono que ocorre parte importante da reparação tecidual, da recuperação neuromuscular, da regulação hormonal e do equilíbrio entre carga e recuperação.

O treino é o estímulo.

O sono é a reparação.

Sem essa resposta adequada, o organismo pode continuar acumulando fadiga enquanto tenta acompanhar metas cada vez mais ambiciosas.

Talvez por isso tantos corredores saibam exatamente o pace dos últimos cinco quilômetros, mas não consigam dizer quantas horas dormiram na última semana.

Sabem o volume semanal dos quilômetros ou milhas.

Sabem a frequência cardíaca.

Sabem o peso do tênis.

Mas não sabem se estão acordando restaurados.

A corrida nos ensina que evolução não acontece apenas quando aceleramos e avançamos.

Às vezes ela acontece quando paramos.

Num mundo que celebra quem faz mais, corre mais e produz mais, talvez uma das atitudes mais inteligentes para quem deseja continuar correndo por muitos anos seja valorizar aquilo que parece não estar acontecendo.

Fechar os olhos.

Dormir.

E permitir que o corpo faça silenciosamente o trabalho que nenhum treino consegue fazer sozinho.

Talvez a próxima marca pessoal não esteja esperando por você na linha de chegada.

Talvez ela esteja esperando esta noite, quando você apagar a luz.

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