A ciência do transtorno nunca esteve tão sólida — e nunca foi tão fácil se reconhecer nela. O problema é que essas duas frases são verdadeiras ao mesmo tempo.
São onze da noite e o vídeo tem trinta segundos. “Cinco sinais de que você tem TDAH e não sabe”, diz a legenda, sobre uma trilha animada. Você perde as chaves com frequência. Começa dez tarefas e termina duas. Trava diante de um e-mail simples por três dias e depois o escreve em quatro minutos. No fim do vídeo, um alívio estranho: então era isso. Não era preguiça, não era falta de caráter. Era um nome.
Multiplique essa cena por milhões. No Brasil, as buscas pelo termo “TDAH” no Google cresceram 576% em cinco anos, segundo levantamento divulgado pela plataforma Medicina S/A em 2024. No mesmo período, a importação e a produção de metilfenidato — a substância da Ritalina — subiram 373% em uma década, e o consumo, 775%. No TikTok, o conteúdo sobre o transtorno já foi visto dezenas de bilhões de vezes; a Medical Journal of Australia estima mais de 36 bilhões de visualizações só naquela hashtag. Nos Estados Unidos, uma pesquisa nacional de 2024 encontrou um dado que resume a época: um em cada quatro adultos suspeita ter TDAH.
Diante disso, a pergunta que circula em consultórios, salas de aula e mesas de bar é quase sempre a mesma, e quase sempre binária: virou epidemia ou virou moda? A resposta honesta é desconfortável. Talvez as duas coisas estejam acontecendo, e talvez elas não se contradigam tanto quanto parece.
O que a ciência realmente sabe
Comecemos pelo que não está em disputa. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento reconhecido, com base biológica e forte componente genético. Estudos com gêmeos estimam sua herdabilidade em torno de 70% a 80% na infância — um dos índices mais altos da psiquiatria. Não é uma invenção cultural nem um rótulo para gente indisciplinada. Para quem realmente o tem, ele começa cedo, atravessa a vida e cobra um preço concreto em escola, trabalho, dinheiro e relações.
Também não está em disputa que ele foi, por décadas, subdiagnosticado — sobretudo em mulheres. O estereótipo do menino agitado que não para na cadeira deixou de fora uma multidão de meninas e adultos com a apresentação chamada desatenta: nada de hiperatividade visível, mas uma vida inteira de tarefas adiadas, pensamentos dispersos e uma sensação difusa de estar sempre remando contra a corrente. Muitos dos adultos que hoje se reconhecem em um vídeo não estão inventando um problema; estão nomeando, tarde, algo que sempre esteve lá.
Mas é aqui que a ciência recente introduz a primeira dobra interessante. Cada vez mais pesquisadores tratam os traços do TDAH — desatenção, impulsividade, inquietação — não como um interruptor ligado ou desligado, mas como dimensões contínuas distribuídas em toda a população. Todo mundo está em algum ponto dessas escalas. O transtorno seria o extremo persistente e prejudicial de um traço que, em doses menores, é simplesmente parte da variação humana normal. Curiosamente, a herdabilidade estimada em adultos, medida por autorrelato, cai para algo entre 30% e 40% — bem abaixo da infância. O gene não some; o que muda é o quanto do quadro adulto é genética pura e o quanto é o resto da vida se somando ao sistema.
E se o TDAH é o extremo de um espectro em que todos estamos, onde exatamente fica a fronteira? Quem a desenha? Essa não é uma pergunta retórica. É o campo de batalha inteiro.
Os sintomas que enganam
O ponto mais delicado — e o mais ausente dos vídeos de trinta segundos — é este: os sintomas conhecidos do TDAH, isolados, não configuram TDAH. Falta de foco, distração, esquecimento, dificuldade de terminar o que se começa, e até o famoso hiperfoco não pertencem a um transtorno específico. São, na verdade, o comportamento padrão de um cérebro sobrecarregado, venha a sobrecarga de onde vier. E as fontes de sobrecarga que definem a vida moderna são exatamente as que melhor imitam o quadro.
Comece pelo sono. Cerca de um em cada três adultos dorme menos do que precisa, e a privação crônica de sono ataca o córtex pré-frontal — a mesma região mais afetada no TDAH. O resultado é quase indistinguível: concentração ruim, esquecimento, irritabilidade, impulsividade. Especialistas em medicina do sono descrevem esse cenário como uma espécie de névoa diagnóstica, em que insônia, apneia e o desalinho do relógio biológico são rotineiramente confundidos com transtorno de atenção. A diferença, muitas vezes, é que os “sintomas de TDAH” desaparecem quando a pessoa finalmente dorme.
Depois vem a ansiedade — e aqui a sobreposição é tão íntima que confunde até clínicos experientes. Ansiedade e TDAH compartilham prejuízos nas chamadas funções executivas: a mente que não desliga tem, por definição, dificuldade de sustentar atenção. As duas condições coexistem em algo entre 25% e 50% dos casos, e pesquisas sugerem que a própria disfunção executiva é a ponte que liga uma à outra. Some a isso depressão, alterações de tireoide, luto, trauma — todos capazes de reproduzir, ponto por ponto, a lista de sintomas de um teste rápido de rede social.
E então há o suspeito que ninguém quer encarar: a própria estrutura do mundo em que vivemos. Uma economia da atenção projetada para fragmentá-la. Notificações a cada poucos minutos. Jornadas que exigem vigilância constante. Expectativas de produtividade que teriam parecido insanas a qualquer geração anterior. O psiquiatra Kevin Antshel, da Universidade de Syracuse, formula a hipótese incômoda com precisão: talvez o ritmo da vida contemporânea esteja fixando um patamar de atenção sustentada que parcelas cada vez maiores da população simplesmente não conseguem alcançar. Não porque estejam doentes. Porque ninguém foi feito para isso.
Como, então, distinguir um transtorno de uma vida? A pergunta parece técnica, mas é quase filosófica — e é justamente ela que um vídeo de trinta segundos não pode responder.
Por que agora?
Se a ciência é antiga e o cérebro humano é o mesmo, por que a explosão acontece agora? A resposta tem dois rostos, e o desconforto está em olhar para os dois ao mesmo tempo.
O primeiro rosto é generoso, e verdadeiro. O aumento reflete, em boa parte, mais conhecimento, mais acesso e menos estigma. O psiquiatra Gustavo Estanislau, do Instituto Ame Sua Mente, insiste que o crescimento dos diagnósticos está longe de ser uma moda criada pelas redes: é fruto de avanço científico, de melhores redes de tratamento e de profissionais mais preparados para enxergar sinais que antes passavam batidos. Para quem sofreu a vida inteira em silêncio, uma influenciadora explicando função executiva pode ser o empurrão que faltava para procurar ajuda de verdade. Desestigmatizar salva.
O segundo rosto é mais espinhoso. A mesma exposição que informa também banaliza. Listas genéricas transformam experiências universais — cansaço, tédio, distração — em suspeita de patologia. O autodiagnóstico, alertam psiquiatras brasileiros ouvidos por veículos de checagem, tende a virar uma identidade antes de virar uma investigação: a pessoa passa a interpretar cada emoção pela lente de um diagnóstico que talvez não exista, e depois resiste a revê-lo diante de uma avaliação criteriosa. Na Austrália, onde a maior parte dos diagnósticos de adultos passa por psiquiatras privados, pesquisadores levantam uma questão delicada sobre incentivos: quando o diagnóstico é um serviço vendido, o que impede que a variação normal do comportamento seja medicalizada? E há o risco farmacológico concreto — estimulantes melhoram o desempenho de quase todo mundo, tenha a pessoa TDAH ou não, o que os torna sedutores e perigosos fora de um acompanhamento sério.
Uma revisão publicada no periódico Healthcare em setembro de 2025 organizou as fontes possíveis de sobrediagnóstico: critérios aplicados de forma frouxa, histórias clínicas mal levantadas, autorrelato inflado, e a confusão com todas as condições que já vimos imitar o quadro. Nenhum desses fatores nega o transtorno. Todos apontam para o mesmo lugar: o problema raramente é o TDAH existir. O problema é a facilidade com que hoje se chega a ele sem o trabalho lento que um diagnóstico honesto exige — a entrevista longa, o histórico de vida, a exclusão paciente de tudo o que se parece com ele.
A tensão de fundo
Chegamos, então, à pergunta que dá título a esta reportagem — e à razão de ela ser a pergunta errada.
“Epidemia real ou moda?” pressupõe que exista uma linha nítida entre o cérebro que tem o transtorno e o cérebro que não tem, e que o único problema seja contá-los direito. Mas se os traços do TDAH são dimensionais, se estão distribuídos em todos nós em graus variados, então a fronteira entre “diferença” e “diagnóstico” nunca foi puramente biológica. Ela é, em parte, uma negociação — entre o que um cérebro entrega e o que um mundo específico exige dele.
Vale inverter a pergunta. E se o aumento dos diagnósticos não estiver medindo, principalmente, uma epidemia de cérebros defeituosos, mas sim o atrito crescente entre a atenção humana e as condições que criamos para ela? Uma pessoa com traços leves de desatenção poderia atravessar a vida sem nunca cruzar a linha do transtorno — num trabalho com ritmo humano, com sono suficiente, sem um retângulo luminoso disputando cada segundo do seu dia. Coloque essa mesma pessoa dentro da máquina contemporânea, tire-lhe o sono, encha-lhe a ansiedade, e o prejuízo funcional aparece. O que mudou não foi o cérebro. Foi a exigência.
Isso não dissolve o transtorno em metáfora social — há sofrimento real, prejuízo real, e há gente que só começou a viver depois do diagnóstico e do tratamento certos. Mas complica o triunfalismo dos dois lados. Contra quem diz que é tudo moda, a ciência responde que o transtorno é real e por décadas ignorado, sobretudo nas mulheres. Contra quem diz que é tudo epidemia, a mesma ciência responde que boa parte do que hoje se chama TDAH pode ser sono roubado, ansiedade não tratada, ou apenas a resposta previsível de uma mente saudável a um ambiente insustentável.
Talvez a divisão útil não seja entre quem tem e quem não tem o transtorno, mas entre duas perguntas diferentes: o que há de errado comigo? e o que há de errado com o que me pedem? A primeira leva a um consultório, e às vezes é exatamente onde a pessoa precisa estar. A segunda não tem receita — e talvez seja a que mais gente esteja, sem saber, fazendo diante daquele vídeo às onze da noite.
O que fica
Um diagnóstico bem-feito pode ser libertador. Um rótulo mal colado pode ser uma prisão confortável — uma explicação que encerra a investigação em vez de começá-la. E entre uma coisa e outra está a parte mais difícil de vender em trinta segundos: a dúvida, o tempo, a avaliação que não cabe numa lista.
Então fica a pergunta, e ela é maior do que o transtorno. Se um número tão grande de pessoas se reconhece na descrição de uma dificuldade de prestar atenção, a questão mais incômoda talvez não seja quantas delas estão doentes — mas o que estamos exigindo da atenção humana para que tantas, ao mesmo tempo, se sintam incapazes de sustentá-la. Onde termina a diferença e começa o diagnóstico? E, no fim das contas, quem decide onde traçar essa linha: a ciência, o mercado, o algoritmo — ou o mundo que construímos e depois nos pedimos para habitar sem piscar?
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