Esqueça a ideia de levar o remédio pronto até o tumor. Cientistas japoneses criaram uma técnica que usa um gás liberado pelo próprio câncer para fabricar uma substância tóxica dentro das células doentes. O tumor vira a fábrica da arma que vai atacá-lo.
O estudo foi liderado por Katsunori Tanaka, do instituto RIKEN, e publicado em 17 de setembro na Nature Communications. Por enquanto, os testes foram feitos apenas em células de laboratório.
O que realmente acontece aqui?
O gás é o monóxido de carbono. Ele é conhecido como venenoso, mas o corpo humano também produz pequenas quantidades naturalmente. Alguns tumores produzem esse gás em excesso, e as células saudáveis não.
Os pesquisadores levaram um composto de paládio até as células. Esse composto transforma o monóxido de carbono em uma molécula chamada fenantridinona, cujos derivados são tóxicos para as células e já foram usados em medicamentos contra o câncer. O desafio era manter a reação viva. Substâncias naturais da célula, como a glutationa, desativam o paládio rapidamente, e a saída foi envolver o catalisador em albumina, que o protegeu dentro das células.
Por que o sangue não estraga o plano?
Esse era o campo minado. Se o monóxido de carbono do sangue acionasse a reação no caminho, a substância tóxica surgiria antes de chegar ao tumor. Nos testes, o sangue não ativou a reação. A explicação provável é que, no sangue, o gás fica preso à hemoglobina e não sobra para reagir. Isso indica que a substância seria produzida só onde existe tumor.
Os próprios pesquisadores mantêm os pés no chão. Eles descrevem o efeito contra as células de câncer como modesto. Ainda é uma prova de conceito, e o próximo passo é testar em animais. Só depois disso dá para falar em eficácia e segurança.
Uma linha de pesquisa que vem ganhando corpo
Não é a primeira jogada do grupo. Em 2022, a equipe de Tanaka já havia mostrado que era possível fabricar substâncias anticâncer no local onde são necessárias, apenas injetando os ingredientes na veia. A novidade agora é usar um subproduto do próprio tumor como matéria-prima.
A lógica do tratamento vira de cabeça para baixo. Sai o remédio pronto, entra um ingrediente inofensivo que só ganha poder quando encontra o câncer. Se avançar, é o tipo de abordagem que pode redesenhar a oncologia de precisão, com mais foco no alvo e menos dano ao resto do corpo.
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